relatos de uma autoestima #04 – O Dia Em Que Beijei Uma Gringa

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As pessoas sempre elogiaram meu sorriso. Não o sorriso natural, espontâneo, que mostra um pouco da gengiva e dá um contorno grosseiro aos meus lábios, mas o sorriso forçado, aquele de fotos e situações desconfortáveis em que vestimos uma máscara agradável de nós mesmos. É por que meus dentes, de fato, além de bem brancos e de tamanho e alinhamento ideais, são bem bonitos, de forma que eu posso manipular meu sorriso para mostrar somente eles, ato que minha mãe chama de “sorriso idiota” e meus amigos de “sorriso colírio”.

Essa minha mesma mãe, sempre com comentários precisos sobre o ser humano que saíra de seu ventre, disse algumas vezes ao longo de minha vida que meu “rosto era bonitinho, só o nariz que não, o nariz veio do pai, é gordinho, batatudo, se eu fosse você faria uma plástica pra deixá-lo arrebitadinho”. De fato, como eu já disse, meu nariz e meu queixo destoavam do resto do corpo, e empenhavam uma disputa particular para saber quem chegaria primeiro ao chão, disputa na qual o meu nariz, por incrível que pareça, levava vantagem, pois, se estava atrás na distância, esta diferença diminuíra bastante ao longo dos anos.

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Trilogia do Ciúme, de Philippe Garrel

A Trilogia do Ciúme de Philippe Garrel é tudo o que eu poderia querer assistir em um fim de semana. “O Ciúme” (2013), “À Sombra de Duas Mulheres” (2016) e “L’amant d’un Jour” (2017) são filmes curtos, pertinentes e agradáveis, abordando diferentes formas de amor e como o ciúme pode destruí-las.

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Existe uma grande discussão em torno do fazer artístico que circunda a questão de se fazer arte pensando no público ou fazer arte pensando na arte. Existem obras que se fecham em si e não precisam agradar a ninguém. Geralmente as grandes precursoras, as que causam as maiores quebras de paradigma, são desse tipo.

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Foi um bom dia

Luciano andava pela rua com o ar de que alguma coisa tinha acontecido e só ele não tinha percebido ainda. Como numa final de campeonato de futebol, ou no dia seguinte ao do fim da novela. Olhava para os lados e via as pessoas andando apressadas, desconjuntadas, até dando breves corridinhas. Não eram muitas: por algum motivo, as ruas estavam assustadoramente vazias, apenas poucas pessoas muito apressadas, correndo de um lado para o outro.

Olhou de soslaio para o lado e viu um carro freando dramaticamente numa esquina. Uma mulher saía correndo dele, e as pessoas ao redor se aproveitaram da descarga de adrenalina que aquela cena havia injetado na situação pra começar a correr também – cada uma seguindo seu caminho.

Via alguns carros, poucos correndo rapidamente, mas a maioria estacionado, curiosamente com pessoas dentro deles. Alguns, nas ruas menos iluminadas, podia ver que tremiam, como se fizessem sexo. Das janelas dos que estavam abertos, ouvia sorrisos e um pouco da canção que saía dos rádios.

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Jules e Jim (1962)

Certa vez li, ou ouvi – ou talvez até tenha pensado sozinho – que o cerne da Nouvelle Vague era uma mistura de conversas profundas, buscando novas interpretações de aspectos da vida, relacionamentos em formatos inusitados e o descaso blasé e cheio de cigarros dos franceses. Desde essa frase, entendi toda a minha paixão, ainda que um pouco preguiçosa, pelo movimento.

Pelo meu entendimento, os maiores nomes da Nouvelle Vague são Godard e Truffaut. Algo como o Cristiano Ronaldo e o Messi do cinema, ambos foram gênios com formas distintas de jogar. Se o Godard se destaca pelas montagens de seus filmes, pelas cenas e diálogos que dão postagens estonteantes no tumblr e pelos papéis magistrais de Ana Karina e Brigitte Bardot, o Truffaut destila sua genialidade em roteiros psicológicos e poéticos.

Jules et Jim (1962) ilustra perfeitamente isso. Truffaut, com apenas uma ou outra cena icônica, cria diálogos que são uma fonte inesgotável de poesia. Jules e Jim são grandes amigos cuja relação é atravessada por Catherine, uma mulher de pensamento e atitude fortes. Jules se apaixona perdidamente e casa-se com ela, chegando a ter uma filha adorável.

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A Negação da Morte

“Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.”

(Ernest Becker – A Negação da Morte)

Enxofre

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Cena de Somewhere in Palilula (2012)

Eu tava de cabeça baixa lendo um livro.

Ao meu lado tinha um gordinho que me apertava contra a parede do ônibus. O trânsito fluía lento e um cheiro esquisito fez-se presente aos poucos. Lembrei imediatamente de um defumador para limpeza espiritual que tive de passar em casa, mas não era bem aquilo. Não, era outra coisa com cheiro amargo de misticismo. Ainda sem levantar a cabeça, olhando para as páginas do livro, lembrei. Enxofre.

Gente.

Uma linda voz desesperada entrou na cena. “Gente, desculpa”. Levantei a cabeça. Ela usava uma máscara branca sobre a boca e o nariz, um dos magrelíssimos braços se apoiava numa bengala e o outro nas costas curvadas. Balbuciava palavras e pedia ajuda. Estava com câncer, falava de comprar fraldas, uma fralda custa vinte reais, por favor me ajuda, me ajuda, eu imploro. Eu não consigo nem comprar nada pra comer, eu tô com fome, vocês vão me negar? Eu imploro, gente, me ajuda.

E a voz dela era linda. Linda. Era firme, soava bem aos ouvidos. Só que chorada, dolorosa, com uma rouquidão de autocomiseração e desespero de partir o coração. E aquele cheiro de enxofre insuportável misturado com urina, aquela queimação nas narinas. O homem do meu lado levantou e saiu do ônibus, mesmo que não nos mexêssemos há muito tempo.

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