O que aprendi assistindo animes de esportes

Há uns 15 dias, Lucas da Fresno comentou an passant sobre um anime de ciclismo disponível na Netflix que seria imperdível para otakus e ciclistas. Aquele breve comentário desencadeou uma jornada de conhecimento e desafio, que mobilizou minha mente nas últimas semanas, fortaleceu meus pulmões e me fez emagrecer dois quilos. Conto agora, meus amigos, tudo que aprendi vendo animes de esporte.

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O Livreiro de Cabul (2001)

Prestes a completar 20 anos, o livro se passa no Afeganistão, logo após o ataque às torres gêmeas. Uma jornalista convive com a família de um livreiro, um homem respeitado e ascendente social, símbolo das contradições de uma sociedade em transformação, retratando o cotidiano de diferentes membros do clã.

O Talibã, que voltou ao poder há algumas semanas, tinha acabado de cair justamente para os Estados Unidos. Com eles, levaram a institucionalização da ignorância e do radicalismo. Nas ruas ainda se encontra destroços, carros queimados, cartuchos de bala, e a violência ainda convive lado a lado, não só pela guerra recente, mas por estar profundamente entranhada na cultura.

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Balanço dos meus 26 anos

Por mais que esse ano eu tenha postado pouquíssimo, não poderia deixar de fazer o clássico balanço de aniversário, aquele momento anual em que eu repasso alguns pontos do meu ano para utilizar de save-point de como está minha vida. Lá na frente, quando eu morrer, pode ser que isso sirva a alguém; no mais, serve a mim, como terapia.

Falando em terapia, esse foi o ano em que eu efetivamente comecei a fazer terapia. Eu falo lá exatamente o que eu falava aqui, no blog, com vocês. Mas quando a gente envelhece, fica difícil contar da nossa vida – as pessoas que participam dela ficam de olho, e são cheias de coisa. Tudo fica complicado. Tudo gera uma nuance, uma exposição, que filosoficamente poderia afrontar outrém. Daí a gente perde aquele tesão em se expor, coisa que é feita com tanta naturalidade na juventude. Hoje em dias, as pessoas não querem falar muito de si, se refugiam falando sobre coisas, e nisso eu não tenho tanto talento porque o que eu gosto não costuma ser tão popular assim.

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Tudo é Rio, 2014 (Carla Madeira)

Tudo é rio Carla Madeira

Quando Heráclito falou que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, ele vinha de um momento em que todos os filósofos se preocupavam em saber qual era a essência da existência humana. Após uma sequência de teorias, que diziam ser o fogo, o ar, a água, a natureza, Heráclito disse: é a mudança. A vida é mudança.

A primeira frase da sinopse de “Tudo É Rio” diz: “Algumas vezes as mudanças acontecem na marra”. Porque, em última análise, o livro trata de mudanças que, na marra, moldaram a vida das pessoas. De três pessoas: Venâncio, um homem ciumento; Lucy, uma puta; e Dalva, uma mulher com um coração enorme.

Sangue, sêmen e lágrimas.

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Querida Konbini, 2011 (Sayaka Murata)

Querida Konbini | Sayaka Murata

Existem algumas maneiras de ler esse livro. Para os otimistas, é um livro sobre a felicidade e encontrar seu lugar no mundo. Para os questionadores, é um livro que impõe a pergunta: o que é ser normal? Para quem gosta de diagnósticos, deve ser um livro sobre autismo, ou algo semelhante. Para os práticos, uma análise prática: o capitalismo tardio e a precarização do emprego.

Keiko tem 36 anos e nunca se encaixou bem socialmente. Sem nunca saber como se portar, preferia que as pessoas lhe dissessem exatamente o que fazer, como agir, como sorrir, como olhar, como vestir. Encontrou isso num trabalho temporário, em uma loja de conveniência (Konbini).

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Laços, 2014 (Domenico Starnone)

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Tem imagens que são mais óbvias, iniciantes, que todo jovem ao tentar escrever poemas vai recorrer. É por isso que é tão comum encontrá-las por aí. A dualidade da palavra “nós”, que pode ser a primeira pessoa do plural ou um laço bem amarrado, é uma delas.

Tem aquela música da Fresno, “são muitos enredos enrolados, embriagados, como nós”. E tanto a música quanto o livro de Starnone falam de relacionamentos que de tanto se enlaçarem, apertam-se, sufocam-se, e demandam um pouco de liberdade, um corte abrupto, que deixa marcas.

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O Sentido de um Fim, 2011 (Julian Barnes)

Livro - O Sentido De Um Fim - Julian Barnes (box) - Tag | Mercado Livre

Rápido, surpreendente e intenso.

Rápido – É um livro sobre o tempo, sobre envelhecimento, remorsos e esquecimentos. Sintomas de uma vida que vai se acumulando. Na primeira parte, o autor pincela uma infância ligeira, apenas com os pontos relevantes. E depois, um salto, aos 50 e tantos anos muita coisa é retomada após receber uma herança inesperada.

Surpreendente – A grande brisa desse livro é sobre como editamos nossas memórias à mercê de nossos sentimentos, nossas vontades e perspectivas. Sobre como criamos narrativas pessoais, que tomamos como verdade, e que muitas vezes nos afastam de uma concepção verossímil da realidade.

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Intérprete de Males, 1999 (Jhumpa Lahiri)

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Uma série de contos sobre uma Índia cada vez mais globalizada.

O conto que dá o nome ao livro é, de longe, o mais legal: um guia turístico está passeando com uma família americana e conta que trabalha de “intérprete” para o médico estrangeiro que atende no seu bairro, traduzindo do bengali para o inglês as dores dos habitantes. Esse serviço desperta o interesse da mãe, que imagina nele a solução para um mal que ela nunca conseguiu por em palavras.

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O Vermelho e o Negro, 1830 (Stendhal)

Pin em O Vermelho e o Negro.

O negro da batina, o vermelho do exército francês. Essas cores traduzem os ambientes que vão marcar a história de Julien Sorel, o ambicioso filho de carpinteiro que almeja ascender socialmente.

Julien, por ser extraordinariamente bonito, deixa mulheres apaixonadas por onde passa – e é a partir dessas paixões que a história evolui, o que fez Stendhal comentar que a obra é “a primeira vez que um livro teve a ousadia de tratar dos sentimentos franceses” e também “o único livro que tem duas heroínas, a Senhora de Rênal e Mathilde”.

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Diário de Queda, 2011 (Michael Laub)

Diário da queda - Resenhas - Livros - Bons Livros Para Ler

A história de um trauma e suas implicações.

Essa resenha poderia se resumir a isso. O curto livro de Michel Laub, escritor gaúcho de 48 anos, trata de todas as reverberações que um trauma pode causar em uma vida.

O livro é apresentado em forma de diário, marcado por fluxos de consciência e divididos em nove capítulos cujos títulos são: “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre o meu pai”, “Algumas coisas que sei sobre mim”.

Neles, as lembranças de sua família, judeus fugidos de Auschwitz, se entrelaçavam com suas próprias lembranças, reavivando o trauma cujas consequências se projetam em diversos fatores de sua vida nas décadas seguintes.

É pra ler em uma sentada e conhecer uma parte do Brasil que não estamos tão habituados.