Aquela de Jambú

Era verão.

Toda a empresa fora convidada a uma churrascaria chique na zona sul. Comemos comida de gente rica, com carnes que se desfaziam na boca, champagne e cerveja liberada, tudo às custas dos nossos chefes. Vez ou outra pediam o microfone para fazer algum tipo de agradecimento, “estamos ficando bilionários às custas do seu tempo de vida e esforço”, só que mais bonitinho, sabe, coisas assim.

Por volta das 17h ninguém aguentava ingerir mais nada – até por que não podíamos fumar um Bergson por ali, o que diminuía sensivelmente nossa capacidade alimentativa – e estávamos ansiosos para uma choppada que iríamos dali a pouco. Nosso grupo saía pouco, mas quando saía era pra fazer história, e estávamos portanto ansiosos para ir àquela choppada de publicidade da faculdade do meu amigo, o Gui.

Chegamos por volta das 19h. Estava claro e todos já bêbados – a festa começara 16h. Meio deslocado, eu sabia que era questão e tempo – e álcool – até tudo se resolver.

Hoje vou te arranjar uma menina“, disse-me Gui.

Lembrei do Eddy, meu amigo do colégio, dizendo o mesmo dez anos atrás. A mesma falta de jeito, a mesma euforia despropositada.

Deu início aos trabalhos. “Qual é o nome daquele menino?”, perguntou ao ciclano. Era Bernardo. “Bernardo, chega aqui um instante”, puxou Bernardo. “Vem cá, tua amiga ali não quer ficar com meu amigo aqui não?”.

Bernardo deu um sorriso malicioso, levantou o indicador e pediu uns minutos.

Olhei Guilherme, Guilherme olhou-me. Rimos. Comentei que estava me sentindo exatamente como aos 13 anos. 10 anos se passaram…

Eu não tinha visto a menina ainda. Sou míope, estava longe. Acho também que tinha a cabeça de alguém na frente. Mas quando ela se aproxima, meu deus, acho que houve um engano. Ela me recusou mas veio pra dar uma checada no meu amigo. Só pode ser isso. Que mina linda. Que mina, bicho…

É evidente que a partir desse momento minhas capacidades de elaborar pensamentos responsáveis por gerar diálogos minimamente coerentes sumiu.

Travei na base. Ela foi no banheiro um instante e Bernardo veio falar comigo. “Ela achou bonitinho, quis ver como era o jeito, a conversa. Quer um conselho pra vida? Você é bonito, tenta se expressar com mais alegria. Sorri mais.”

Tá certo. Embriagar ajuda. Eu já desisti de tentar ser simpático sóbrio. Espera bater, espera…“, pensei. “Vamos pegar destilado“, disse.

Estava nas minhas mãos. Guilherme dera o mapa, Bernardo ensinara o caminho. Se eu me perdesse é por que eu era muito sem jeito mesmo.

Odeio essa pressão. Mas gosto também. É melhor que seja assim do que não rolar at all. Mas tu bem sabes, leitor. Verás que um filho teu não foge à luta. Dobrei um pouco a manga da camisa. Ajeitei a franja. “Pronto, tô gatinho”. É agora. Agora.

Fui no banheiro vomitar. Toda a carne do almoço tava pesando, um homem não pode trabalhar assim. Após os bofe, tudo estava melhor. Mais claro. Eu era um novo ser humano. Pensava com a clareza de um sábio; pulsava com a frieza de uma iguana.

Lavei a boca, por respeito. Fiz questão de limpar bem com água. E vodka. Reencontrei o bonde. Vamos com calma, pois é preciso deixar acontecer na-tu-ral-men-te.

Festa vai, festa vem. Eu danço muito mal sóbrio. “Isto precisa bater logo”, penso olhando para aquele líquido esquisito de tons averdeados na minha mão. Bebo mais. Dou uns role com Guilherme pra me distrair um pouco vendo gente bonita em clima de paquera. Aonde ele passa, beija alguém. Só mina top. Mas a que tava no meu script era mais.

Encontro com ela no meio do povo, perdida de todos. Ela me chama pra tomar uma dose de Alquimia. Uma mistura de cachaça de jambú com groselha. Demora um tempão pro cara passar o cartão. É constrangedor comprar coisas com meninas. Eu devia pagar? Sinto que sim. Mas pareço um cuzao se ofereço. Machista do caralho. Mas do mesmo jeito… aposto que ela aceitava. E ia até gostar, no fundo, no fundo. Quem não quer ganhar um drink à toa? Mas não aceitaria de primeira, ia recusar. Teria que insistir. E, se eu estivesse errado e ela não pretendesse aceitar desde o princípio, eu ia parecer mesmo um cuzao insistindo. É melhor deixar pra la…

Mas que demora, como demora!

Jambu deixa a boca dormente, sabia?“, ela me disse. Aham. Sei. Sem vergonha. Tá querendo me beijar, agora é fato. Estou sem jeito. Ainda não, peraí…

Encontrei o Gui. Colocamos um balde no meio da roda. Cada um pega uma cerveja. A menina vai se mexer, tropeça no balde e… cai em cima de mim. Sou educado, deixo ela se recompor. Um pouco depois eu digo:

– Vem cá, sua boca ficou dormente?
– Um pouco, e a sua?
– Não sei, quer v…
– Espera, alguém vai chegar em mim aqui?

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– Eu pretendia, em algum momento…
– É que eu não gosto que cheguem em mim, eu prefiro chegar.
– Então chega…

Beijamos.

PROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM

Trombetas soaram. Ahhh, que mina gata!!!

Que alegria despropositada!

***

Entre um beijo e outro, olhei para o Gui. O menino se atracava não com uma, mas DUAS meninas ao mesmo tempo – e na intensidade do momento, braços e cotovelos iam para todos os lados, num roçar frenético de peles e germes.

Beijava ainda minha moça, quando sinto uma forte cutucada no ombro.

Cara, preciso ir embora.“, o Gui tapava um olho com a mão e chorava com o outro.

“Ué, de repente, não mais que de repente? Que pasa, amígo?”, eu falo línguas quando estou embriagado ou feliz.

– A mina meteu a unha no meu olho, mano.
– A mina O QUE?
– Pois é, tá doendo pra caralho. Ela meteu a unha no meu olho.
– Já lavou, mano?
– Já, não melhorou. Tá doendo pra caralho. Vou pro hospital. Valeu!

Ele ainda ficaria uma semana com os olhos inflamados, e eu naquela noite levaria a moça de uber até em casa, cortejando-a cortesmente a me ver noutro dia.

***

Blog novo!! 😀

3 comentários em “Aquela de Jambú”

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