O Centro ao Meio-Dia

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“11h55?”, o Gui me mandou no whatsapp. “F1” respondi.

Eram 11:45. Eu estava no escritório e já começava a me preparar para dar um dois num beck antes do almoço, como fizemos algumas vezes pontuais.

Começou de forma inocente. Certa vez a gente tava afinzasso de dar um dois e não sabia aonde – o centro do Rio é cheio de coxinhas de terno, policiais e delatores. É preciso ter cuidado.

Aí achamos a pracinha. Ela é bem próxima ao nosso prédio, mas é tão verde, aberta e passam tantos carros que venta a todo instante. Podemos fumar de tudo que o cheiro some antes que alguém o perceba.

Só não pode dar nas vista.

Começamos cautelosos, com medo de sermos descobertos. Mas o hábito é uma desgraça, e em pouco tempo começamos a tirar instantes fortuitos do dia para dar um dois. Parte considerável da empresa é maconheira, e a ideia do spot pegou. Ganhou vida própria e é frequentado por diversos maconheiros, de setores diferentes e em diferentes momentos.

Agora, é preciso fazer um flashback.

Lembram da festa com a cachaça de Jambú? O Gui ficou uma semana sem poder ir trabalhar por conta daquela unhada. Aquela mensagem foi a nossa primeira comunicação após tirar a licença.

Assim, deu 11h55 e para a praça fomos. Eu tinha apenas uma ponta e ele não tinha nada. Fumamos a ponta. Após alguns tragos, a ponta já estava nas últimas e ficava daquelas que explanam a quilômetros de distância se tratar de maconha, pois cigarro nenhum ficaria daquele tamanho. Uma moto com dois guardas civis parou na minha frente. O Gui, de costas, tava viajando.

“Abaixa o beck discreto que deu ruim!”, avisei.

“QUE? FUMA AI CARA HAHAHA QUE?”

Peguei a ponta, joguei no chão e pus o pé em cima.

“Levanta o pé agora!”, gritou o guardinha. O Guilherme ficou desesperado.

“Que que é isso aí?”. “Tabaco”, respondi, treinado.

Ele pegou a ponta do chão. “É tabaco, isso aqui?”, perguntou ironicamente.

“Misturado com maconha, um pouco, hehe” respondi.

Todos rimos, sem ninguém ter achado graça. Menos o Gui. O Gui perdeu a linha.

“POR FAVOR CARA QUEBRA ESSA AÍ PRA GENTE EU TO DOENTE EU PASSEI A SEMANA NO HOSPITAL OLHA AQUI A MINHA SELFIE NA EMERGÊNCIA UMA MENINA COLOCOU A UNHA NO MEU OLHO EU TAVA SÓ BEIJANDO ELA CARA POR FAVOR EU TENHO ANSIEDADE DEPRESSÃO EU FUMO PRA SOBREVIVER SÉRIO MESMO EU SOU TRABALHADOR TRABALHO AQUI DO LADO EU JURO OLHA AQUI EU TE MOSTRO UMA FOTO”

“E trabalhador lá fuma maconha? Você é um vagabundo de merda MACOEIRO que sustenta o blá blá blá discurso blá blá blá seu macoeirinho de merda. LIGA AÍ PRO TENENTE GOMES PRA GENTE VÊ O QUE QUE A GENTE FAZ

Permaneci em silêncio olhando fixamente pro chão. A bronca dos guardinhas era ridícula. Guilherme continuava tentando argumentar com desespero. Eu tava mais preocupado com o almoço.

Permaneci em silêncio, o rosto impassível, como se uma iguana eu fosse. Encenaríamos o teatro deles e sairíamos dali rapidamente, pois aquele tipo de guarda não poderia nos enquadrar de forma alguma, principalmente com a ínfima quantidade que tínhamos.

O desespero do Guilherme, no entanto, dava-lhes uma moral que eu não gostaria que tivessem e, olhando feio para ele, tentava dizer em silêncio para que se controlasse.

Quando o menino pegou a carteira e entregou ao guarda uma receita de colírio assinada pelo oftalmologista do Hospital dos Olhos, argumentando que fumava para estimular o sangue nos olhos, os guardas precisaram esconder o riso. Eu não. Abri uma gargalhada e os dois me acompanharam. Ai acho que até eles deixaram de se levar a sério. “Quer saber? Some daqui vocês dois”, disse o mais velho, enquanto o mais novo virava o rosto para esconder o riso com a mão.

Já longe, cheguei pro Guilherme: “Koe fera, contém esse nervosismo aí..”

“Foi pra quebrar eles… hehe…”

Foi sim.

****

Tinha o primeiro date com a menina da festa. Fomos almoçar. Me sinto pretensioso chamando de date. Ela tem uma postura bem de broder. E ela é tão gata que não sei ao certo o que deve achar de mim. Me sinto esquisito de pensar que ela pode pensar que sou esquisitinho, mas legal. É doido isso, né? Quero que ela pense: que moleque foda! bonito! quero este corpo grudado nimin. Mas tenho a impressão de que ela pensa: meeh.

Às vezes me pego imaginando o que as moças com quem saio devem falar de mim para as amigas. Não tenho o menor interesse nelas; e também, do jeito que minha visão da vida é embaçada, é capaz de eu não acertar uma simulação sequer. Mas gosto de pensar que posso ser elogiado, e me incomoda pensar nas críticas. Principalmente nas justas.

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Ela falou pra eu escolher o restaurante. Não sou bom nessa história. Queria sugerir McDonalds. Optou-se por comida. Fiz mó propaganda: ai, vou te levar no mais legal que conheço por aqui, bomzão. Quando chegamos na porta:

“Ja vim aqui com uns amigos. Todos passamos mal…”

Ahm… tem… um… ahm, Mcdonalds al…

Fomos no restaurante mesmo. Estava bom, a conversa foi irada. Compartilhamos algumas perspectivas esquisitas acerca da vida e é sempre gostoso se reconhecer no outro. Estamos em um momento parecido, que ela resumiu em uma frase. “Não me vejo em nada monogâmico em alguns anos”.

Eu fiquei sem palavras. Por que ela roubou todas as minhas. Foi meio desconcertante só conseguir dizer que eu concordava plenamente, e terminar com uma citação de um poeta sul americano com nome de Liversson “não vou te criticar, ta de parabéns”.

Estou dividido entre esses dois pensamentos: é tão gata que me faz duvidar de minha própria gateza; mas nos reconhecemos um no outro, a conversa flui bem e somos meio malucos.

Nos despedimos sem beijo. O centro da cidade não é romântico ao meio-dia.

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