A Força de Mediocridade

Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas. O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?
Schopenhauer

***

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Uma vez no terceiro período eu queria fazer um trabalho para a matéria “Estudos de Consumo”. Toda a ementa versava sobre as lógicas de consumo, sobre como a sociedade como um todo passou a desejar de diferentes maneiras, dos ciclos e gatilhos de desejos que moldam nossa vida e cultura. Eu sempre faltei essa aula, pois começava às 8h e eu nunca que vou conseguir chegar na faculdade às 8h, mas o trabalho era obrigatório e eu estava empolgado com um tema: “O Romance na Pós-Modernidade”.

Estava lendo uns livros de antropologia sobre as lógicas dos relacionamentos amorosos em diferentes momentos da humanidade e sobre como a pós-modernidade oferecia todo um novo aparato de relações, descartáveis, transitórias, desapegadas, mas também a partir das quais encontramos voz, melhorias e crescimento.

Ainda era 2014, então não estranhem este tema que hoje é tão batido: quis fazer um estudo antropológico sobre “O Amor no Tinder”. Mas, damn!, uma menina que eu nunca tinha falado pedira este mesmíssimo tema antes para a professora. Pedi para fazer sobre este tema também, sugerindo que a competição nos estimularia; mas a professora achou que seria melhor que fizéssemos juntos.

Péssima ideia.

Como eu era faltoso e displicente, a menina julgou que eu estava entrando no trabalho dela apenas para “me dar bem”, fazendo questão de ser escrota em todos os momentos e subjugar a minha capacidade de diversas maneiras. Cheguei a emprestar um livro – UM LIVRO!! – para ela, demonstrando o embasamento teórico que queria dar ao trabalho, e tirando dali ideias para estruturar mais de 30 páginas de teoria.

A menina tinha todos os aspectos de um ser humano chato; voz fina, cara amarrada, branquelíssima, agressiva e mal humorada. Recusou agressivamente todas as ideias, não leu o livro – NEM ME DEVOLVEU!!! – e ignorou todas as minhas tentativas de comunicação. Do centro de sua superficialidade, argumentava sempre que “você está querendo inventar a roda”, enquanto ela só queria “uma nota 5 pra passar logo na matéria”.

Foi nesta época que eu comecei a desenvolver a teoria da Força de Mediocridade.

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A Força de Mediocridade é uma energia sedutora que impele as pessoas a se contentarem em serem médias. Mais do que se contentarem – às vezes, entregam-se à força como se houvesse algum prazer na mediocridade. As pessoas vislumbram a possibilidade de grandeza, passam em frente à ela, são convidadas pelo universo a executar projetos importantes; e optam conscientemente por serem medíocres, por fazerem apenas o estritamente necessário. Uma vontade louca de se adequar à maioria, de imitá-los.

Quando lhes são oferecidas possibilidades de executar coisas grandes, que deem orgulho, que gerem crescimento à comunidade e a si mesmas, elas optam sempre por listar as desculpas pelas quais elas não fazem nada, rigorosamente nada.

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As pessoas em geral se mantinham em silêncio ou discordavam quando eu expunha essa Teoria da Força de Mediocridade. Só recentemente eu vim a perceber que na verdade ela me é tão danosa e me gera tanta insatisfação por que vai de encontro a uma postura minha, particular.

Eu não me contento com o médio. Pelo contrário, eu tenho ojeriza a me nivelar por baixo, a me resignar com o “ok”.

Eu faço as coisas pra valer, por que o próximo job é sempre uma nova chance de tentar ser melhor, o próximo romance é sempre o que exigirá mais de mim, o próximo desafio é sempre uma nova chance de surpreender – a todos e a mim mesmo. Por que não agora? Se não agora, quando?

Meus relacionamentos mais duradouros sempre foram baseados na troca de estímulos, no crescimento mútuo. Não lembro quando foi a última vez que me satisfiz em relações 100% pautadas em Netflix e amenidades. Gosto de pessoas que me tornem melhor, que me façam crescer – seja a menina que eu quero conquistar, sejam os/as amigos/as que eu tenho em alta valia e quero ser parecido.

Eles me estimulam tanto a ser melhor que eu me cobro por entregar esse crescimento também – como gostarão de mim se eu não agrego nada à vida deles? Eu mesmo não gosto de quem não agrega!

É o complexo de diferentão sendo usado a favor do crescimento. É o adolescente que ouvia Róque enquanto todos ouviam I Got a Feelin e se sentia de alguma forma melhor, superior, destacado. Viciou-se na sensação, cresceu, virou um adulto que busca a todo instante algo que o torne um pouco melhor, um pouco diferenciado da média.

Virei esse amontoado de diferenças, essa grande pilha de particularidades que pode dar asco a alguns e brilho nos olhos de outros. Uma egotrip eterna, que suspira apesar da preponderância da realidade.

***

Na véspera da entrega do trabalho, a menina apareceu com o artigo todo feito, inclusive com a minha parte – ela me resignara somente à tarefa de arrumar pessoas para responderem à entrevista que ela elaborou porcamente, enquanto ela escreveria a teoria e conclusão. O problema é que ela veio dizendo que não poria o meu nome.

Discutimos. Xinguei-a de alguns nomes que não me orgulho e terminei minha defesa com um PODE ENFIAR ESSE TRABALHO NO

Naquela noite, eu passei 8 horas escrevendo e montando um dos trabalhos mais incríveis da minha carreira acadêmica, com 28 páginas e mais de 20 slides. Ainda nesta noite, solicitei a ajuda dos meus amigos tuiteiros para responderem uma pesquisa feita ali na hora, dialogando com o meu novo trabalho, e o Twitter, sempre um anjo na minha vida, me garantiu 54 respostas em 1 hora.

Cheguei pra apresentar viradão no Samurai, movido à base de café e ódio. Um cara apresentava algo que não lembro. Se a mocréia apresentasse o artigo dela antes de mim, o meu ficaria repetitivo, enfraquecido. Mediano. Não, não, não. Não virei a noite pra ser médio de manhã.

Assim que a professora perguntou quem seria o próximo, fitei a menina e respirei três vezes. Ela hesitou. Levantei.

Eu!

***

Apresentei super bem, andando pelo tablado, interagindo com a turma. Um trabalho acima da média em todos os aspectos. Fiz os slides no Photoshop e cada elemento do layout dialogava com o conteúdo. Criei fluxogramas para as teorias de Campbell, Bauman, Freud, coloquei estatísticas e encadeei tudo em um longo raciocínio filosófico.

Todos adoraram. Aplaudiram e viram entusiasmados até o final, que terminava com uma piadinha – toda apresentação minha termina com piadinha para as pessoas irem embora felizes. Fizeram perguntas. Levantei um debate. A aula se alongou e todos continuaram falando do trabalho, dando relatos sobre o Tinder, sobre relacionamentos, enfim, elogiadíssimo. Tirei 10, mesmo tendo faltado 70% das aulas.

A menina, durante a apresentação, bufando de raiva, chegou a chutar a cadeira da frente, fez um barulhão.

Hm …? Algum problema ai? – debochei

Não, não…

***

Ela só foi apresentar na aula seguinte. Não cheguei a assistir, ela foi a primeira e eu cheguei atrasado, no último slide. Só deu para ver uma coisa: os slides eram brancos e ela apresentou sentada.

Srsly?

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