Espetáculo no Escuro

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Um barulho tremendo lancinou no meio da rua e as luzes de toda a vizinhança se apagaram de repente.

Alejandro ficou como que paralisado por alguns instantes, esperando pelos próximos acontecimentos. Imediatamente o alarme de um carro começou a tocar bem no fundo. O coração dera um único pico, suficiente para uma volúpia assomar-lhe o peito e disparar seus batimentos.

Olhou para o celular. 2% de bateria. Agora sim acendeu-se-lhe no peito um desespero sem precedentes. As horas seguintes subitamente pareceram que durariam dias, meses, como que uma eternidade. Seria obrigado a dormir cedo, não apenas cedo – impensavelmente cedo.

Tateou o quarto tentando chegar ao armário. Deviam ser por volta das 20h, então havia tempo de dar um passeio ou pegar o McDonalds aberto, talvez se fizesse os dois voltasse tão cansado que dormisse bem. Que droga, não queria sair de casa hoje. Chovia, fazia frio e teria de tomar banho gelado. Mas nessa escuridão mórbida não dá para ficar, pensou.

É claro, existem as velas e os livros, mas isso é o suficiente por algumas horas e não era o que esperava para aquela noite. Além do mais estava lendo um livro que nem o animava tanto assim, ia empurrando-o com a barriga, lendo algumas páginas em ocasiões dispersas, às vezes pulando discretamente alguns parágrafos, com receio de que alguém percebesse.

Quão escravo ficava da eletricidade dentro daquele quarto! Lembrou-se de momentos antigos na juventude, quando morando em bairros menos prestigiados a luz faltava com frequência, podendo voltar em alguns minutos ou dali a dias, uma tortura com todos os toques de sadismo possíveis. No verão era frequente e aqueles eram os momentos mais dolorosamente quentes do ano por alguns minutos, até perceber que nem estava tão quente assim, estava até aprendendo a valorizar mais as brisas naturais. Era só a nossa impressão de um calor que parecia um pouco mais intenso por ter olhado com pouca atenção, na correria da vida elétrica.

Apesar de nos primeiros minutos o mundo parecer à beira do colapso, as primeiras horas até que costumavam transcorrer bem para ele. Era como se uma sensação de limpeza, de desviciamento da tecnologia o fizesse bem, o conectasse mais com o mundo e a natureza e seu cérebro passasse a utilizar pedaços negligenciados. Prestava atenção em sua respiração, na postura, até a percepção do tempo parecia mais orgânica, como num transe meditativo forçado.

Não conseguia, contudo, sentir como se estivesse livre ou qualquer sensação relacionada à liberdade, pois liberdade seria fazer o que ele quisesse, e o que ele queria naquele momento era assistir um filme e esquentar um macarrão instantâneo no microondas. E isso, tristemente, ele não podia. Sentia então uma enclausurante angústia constatando sua escravidão.

Todos esses pensamentos dançaram em sua cabeça no espaço de alguns segundos, até que subitamente as luzes se acenderam. Conteve um suspiro de alívio com receio de que a situação mudasse e a luz fosse de novo embora. Mas ela ficou, e o alívio perdurou mais alguns instantes.

Foi até a janela e encontrou o poste de luz pegando fogo. O carro embaixo piscava.

Um espetáculo de luzes em homenagem à eletricidade.

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