relatos de uma autoestima #03

 

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Ao longo de toda a minha carreira de atleta, permaneci imune à maioria das mazelas que afligem a carreira de jogadores, como lesões, suspensões, perseguições e outros ões diversos. Sempre fui, contudo, vítima de um problema devastador que ceifou qualquer possibilidade de seguir uma profissão esportiva: eu sou ruim em todos os esportes.

Sempre que me chamavam para jogar futebol, eu, que nem chuteira tinha até pouco tempo, sacava meu allstar e ia para a parte defensiva do campo, pois minha expertise, mais do que dominar uma bola, era dar carrinhos. Se me faltava técnica, sobrava vontade – mas só nos primeiros cinco minutos, antes de cansar; depois faltava tudo.

Esse currículo não me permitia frequentar os times, e por toda a adolescência eu também não via muito interesse, pois futebol estragava minha chapinha e me obrigava a lidar com outros seres humanos, duas consequências tenebrosas para qualquer ato; então enquanto todos corriam na educação física, eu ficava deitado na arquibancada lendo alguma coisa.

Recentemente, contudo, fui convidado por amigos da UFRJ para uma pelada apenas de jornalistas. Jornalista é uma camada social bastante específica da sociedade que sofre de uma mazela que eu, publicitário, encontrei poucos parceiros de profissão que compartilhassem – apesar de amarem futebol, são catastroficamente ruins nele.

Está escrito nas tábuas régias do universo que quem escreve e pensa com facilidade não tem coordenação motora para praticar esportes, e qualquer indivíduo que exceda a regra é rapidamente defenestrado da sociedade, de forma que não os conhecemos cotidianamente e, para falar a verdade, preferimos que continue assim.

Isto posto, me pareceu enfim uma boa oportunidade de jogar futebol de maneira franca, com pessoas igualmente ruins. Spoiler: isto acontece, ainda que, tristemente, eu continue sendo destacadamente o pior.

É que eu sou ruim mesmo. Certa vez eram 16 pessoas na quadra, ora essa, está feita a conta – três times de cinco e o pior jogador fica na próxima. Dos três que tiravam o time, dois são meus grandes amigos, de forma que me senti confortável para pedir que me salvassem do destino fatídico; fizeram-se de surdos, olharam para o além… convocaram outras pessoas – ou seja, de 16 ruins eu fui o pior, o que só pode significar que eu sou mais inteligente do que eles e por isso, por isso!, pior nos esportes.

***

Mas às segundas, às 22h, encontramo-nos todos no aterro do Flamengo e jogamos futebol. O horário não poderia ser pior, é verdade, mas está nisso outra característica comum a todos os jornalistas, que são os horários criminosos e as escalas desumanas. Como saem da redação às 21h, às 22h se afigura possível, e jogamos até o último estar esgotado, o que costuma acontecer por volta de 1h30 e 2h da manhã.

É engraçado um ambiente só com jornalistas quando você é o único não-jornalista, pois eles alimentam uma aura, uns hábitos que só eles tem e gostam de exercitar, como o de comentar em pormenores todas as notícias do dia, e de demonstrarem que leram e deglutiram todas as informações do jornal, e de debater até sobre os detalhes editoriais do jornal, demonstrando um apego não só às informações como ao objeto físico do jornal, às entrelinhas, à diagramação dos parágrafos, aos espaçamentos entre frases e outras coisas que só jornalistas mesmo podem se importar.

Falam sempre sobre futebol e fofocas da empresa, mas recaem invariavelmente em comentários sobre o dia a dia do trabalho e procuram em tudo uma brecha para tirar uma pauta interessante. Foi o caso de Carolzão.

***

A Inusitada Trajetória Futebolística de Carolzão

Carol, uma menina marrenta de um metro e meio que começou a frequentar nossas peladas, de tão pequena e marrenta, rapidamente dividiu opiniões sobre sua existência, e mais rapidamente ainda se tornou um dos trending topics da pelada. Não tinha um dia que não se falasse de Carolzão, com destaque para uns dois ou três que, quanto mais tentavam demonstrar desinteresse, mais incutiam o assunto às conversas, e acabavam por demonstrar um inusitado prazer em falar da menina.

Sua presença distinta, marcante, em meio a um monte de marmanjos, os surpreendia e instigava. Chegava a ser repetitivo o quanto se discutia acerca de cada minúscula ação dela, até o dia em que esse interesse expandiu-se para além das quatro linhas.

Numa única noite fora à pelada um jornalista tal, redator de não sei daonde, que lançou mão de seu visionário em-pre-en-de-do-ris-mo e encontrou na Carolzão uma pauta interessante para o Dia Mundial da Mulher. Mandaram uma jornalista entrevistar a menina e deram à reportagem uma roupagem feministinha, em que cada mínima atitude da menina era para parecer um grande ato revolucionário. “Ela chega nas quadras do Aterro às 17h e só sai quando todos os marmanjos cansaram”, era a chamada da matéria, que vasculhava a fundo cada detalhe da desinteressante vida de Carolzão. Em alguns momentos da matéria, fazia-se uma ode à tranquilidade e autoestima que a menina alimentava para com seu corpo, e ilustrava essa tranquilidade com o fato de que ela “pusera silicone aos 20 anos”.

A expectativa era de que a matéria engrandecesse a todos; a jornalista, que fizera uma baita matéria, a Carolzão, que tornava-se um ícone feminista do Aterro, e às mulheres, que vislumbravam um novo perfil a se seguir. Mas pera… silicone?

Bum! A divulgação do silicone caiu como uma bomba na vida da menina. Carolzão, que só queria bater uma bolinha, tinha sua foto, sua cara, sua vida e intimidade expostas no maior jornal do Rio de Janeiro, em pleno dia mundial da mulher, e mais – contando para todo mundo, familiares, amigos e (o que pareceu pior), amigos do namorado, que ela tinha silicone.

O namorado reclamou, os vizinhos comentaram, gente que ela não conversava há anos vieram parabenizar ou compartilhar julgamentos, e, pior, o namorado ficou irritadíssimo de ter aquela informação tão amplamente exposta.

Após aparecer uma vez para demonstrar toda a sua insatisfação, Carolzão nunca mais apareceu na pelada, e seu nome surge vez ou outra quando alguém, sempre tentando demonstrar desinteresse, pergunta an passant “e carolzão, ein, por onde anda?” no que alguém responde “depois da reportagem, nunca mais”.

Fico triste por Carolzão: perdeu a pelada e o privilégio de ter suas intimidades.

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