relatos de uma autoestima #04

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As pessoas sempre elogiaram meu sorriso. Não o sorriso natural, espontâneo, que mostra um pouco da gengiva e dá um contorno grosseiro aos meus lábios, mas o sorriso forçado, aquele de fotos e situações desconfortáveis em que vestimos uma máscara agradável de nós mesmos. É por que meus dentes, de fato, além de bem brancos e de tamanho e alinhamento ideais, são bem bonitos, de forma que eu posso manipular meu sorriso para mostrar somente eles, ato que minha mãe chama de “sorriso idiota” e meus amigos de “sorriso colírio”.

Essa minha mesma mãe, sempre com comentários precisos sobre o ser humano que saíra de seu ventre, disse algumas vezes ao longo de minha vida que meu “rosto era bonitinho, só o nariz que não, o nariz veio do pai, é gordinho, batatudo, se eu fosse você faria uma plástica pra deixá-lo arrebitadinho”. De fato, como eu já disse, meu nariz e meu queixo destoavam do resto do corpo, e empenhavam uma disputa particular para saber quem chegaria primeiro ao chão, disputa na qual o meu nariz, por incrível que pareça, levava vantagem, pois, se estava atrás na distância, esta diferença diminuíra bastante ao longo dos anos.

Por sorte, contudo, o universo fora carinhoso comigo e, à medida que minha cara tomava novos trejeitos e esboços, tudo em mim começou a crescer, exceto o nariz, que após um tempo passou a ser apenas mais um elemento do meu rosto, e meu queixo, que adquirira movimentos retilíneos e duros, os quais me conferem uma aparência bastante semelhante, perceba, à do Brad Pitt.

Com o rosto harmônico, o cabelo bem cuidado e o corpo em chamas, a única conquista que me faltava para alcançar a autoestima dos sonhos era obter sucesso no fatídico e sinuoso teatro da dança do acasalamento. Se no passado meu sol em escorpião me tornara impossibilitado de manter uma relação decente com seres do sexo oposto (em outras palavras: eu era um idiota mesmo), a partir dos 22 anos meu ascendente em peixes parece ter tomado as rédeas da minha vida (ou seja: melhorei), garantindo um autocontrole e maturidade sentimental capazes de me trazer amizades muy graciosas.

Foi o caso de Eve Paper, a gringa que eu beijei.

***

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Após um longo mês de junho, desses que duram 6 meses num só, enfim era a quarta-feira, véspera de feriado, último dia do mês e, principalmente, o meu retorno ao Circo Voador. Se até 2015 eu frequentei o Circo Voador, a mais nobre casa de shows do Rio de Janeiro, ao menos duas vezes por ano para ir nos religiosos e tradicionais shows do Forfun, após o término da banda em 2015 não mais o frequentei, tendo voltado nele apenas em uma ocasião, noite na qual fumei um baseado com parte considerável dos meus heróis de infância, mas isso é história para outro dia.

Naquela quarta era show do Simple Plan e eu tinha pretensões de uma noite inesquecível. Pena que meus companheiros de show não pensaram o mesmo, e tão logo o Pierre gritou o último thank yooooou rioooo após o maravilhoso show em homenagem aos 16 anos do primeiro álbum, olhei para o lado e meus amigos já estavam longe, tão longe que nos perdemos. Só consegui reestabelecer contato alguns minutos depois quando eles, já do uber, me ligaram. Nem batiam 00h no relógio e eles já rumavam para casa.

Mas peraí. 00h. Lapa. Amanhã é feriado, o salário caiu hoje.

Você acha que eu vou pra casa?

Comecei a andar pela Lapa enquanto ligava para amigos. Algo me dizia que o Phil estava pela Lapa, talvez o fato de ele ter me avisado: estarei pela Lapa. Liguei para ele. Ele estava na Lapa, mas acabara de entrar no Antonieta, uma casa de festas hetero topzera no coração lapiano. Característica marcante de festas de hetero topzera, a fila para entrar na festa era gigante, enorme, e andava tão lentamente e mórbida quanto a fila do desemprego. Pensei comigo que não havia condição alguma de enfrentar aquela fila no estado em que me encontrava, então vaguei pela Lapa buscando uma bebida forte o suficiente para deturpar a minha percepção do tempo e fazer com que a fila ao menos parecesse mais dinâmica.

Enquanto comprava a famigerada caipirinha de 7 reais, que todo mundo toma e nunca dá nada, mas quando alguém passa mal já vem logo dizer que é “por que puseram álcool etílico pipipi popopo”, pois bem, comprando essa caipirinha encontrei com dois amigos, ou melhor dizendo, meros conhecidos, pessoas que em estados básicos de sobriedade eu teria ignorado, como no ônibus ou no banheiro do McDonalds, mas a alegria pela caipirinha era tamanha que abri os braços com um sonoro ÔOOOO MEU QUIRIDO, COMO QUE CÊ TÁ?

Não minto ao dizer que sequer lembro o nome deles; os conhecera no mês anterior, naquele show supracitado em que fumei um baseado com meus heróis de adolescência, mas essa história fica para outro dia, fato é que não lembrava o nome deles e sustentamos nossa comunicação nas incríveis lembranças daquela noite mágica.

“Tá perdido?” me perguntaram, “tô indo encarar a fila do Antonieta”, redargui, “a gente também!”, “ora bolas, que alegria!!”, “hoje é aniversário do Strófabous”, ou seja lá qual era o nome dele, “você pode entrar como VIP, ai não pega fila, não paga entrada e ainda ganha uma cerveja. Só dizer que teu nome é Pedro Couto”.

O universo às vezes sorri, não é mesmo? E naquele instante você podia me chamar de universo, pois meu riso estava fácil, debochado e mal sabia o que estava por vir.

Entramos na festa e encontrei com Phil e seu amigo, Ruan, cada um com um balde de cerveja. Tão logo adentrei o recinto, minha percepção aguçada relatava que estávamos na ponte entre o primeiro momento da festa topzera, em que só se toca sertanejo, para o segundo, o funk envolvente, aquecedor de quadris para ninguém travar a coluna quando começar o 150bpm.

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Cheiro de lança do bom, ein?

Pouco tempo decorreu até eu estar completamente embrigado. Se geralmente ando com amigos hipsters em festas hipsters e, tão logo fico embriagado, vou para a área de fumantes aproveitar a minha onda com conversas rocambolescas com desconhecidos, na festa hetero não há essa opção: como a maioria das pessoas não sabe conversar – muitos sequer conseguem concatenar mais de um neurônio capaz de produzir raciocínios minimamente lógicos – a festa torna-se um ambiente puramente físico.

Os homens permanecem a maior parte do tempo observando, o peito estufado, o pescoço reto à coluna, o queixo levantado, o copo com a maldosa na mão direita, os olhos à espreita de qualquer curvatura denunciando feminilidade. Tão logo ocorre uma troca de olhares, o animal “homem” sente-se intimado a seguir a dona do vislumbre, sussurrando-lhe gracinhas ao ouvido e torcendo para que o desfecho da conversa inquira na troca de germes salivares.

Já as moças só querem dançar. Elas dançam, e dançam, e eu fico comigo pensando se não deve dar uma dor danada nos quartos aquela danceteria toda, pois não pode ser saudável uma movimentação tão intensa e ininterrupta de bunda e quadril, ainda mais bundas e quadris tão graciosamente grandes. Fosse eu me meter a dançar daquele jeito, no dia seguinte sairia da cama direto para o ortopedista. Pois elas dançam intensamente, exceto quando uma manada do animal “homem” resolve passar; eles se movimentam a todo instante, na constante expectativa de trocar olhares com as moças, o que de fato acontece, a troca de olhares, no que elas pensam “porra, cara, me deixa dançar” e eles pensam “ela tá me dando mole, eu tenho certeza”.

Interrompidas, então, elas precisam recusar o ensejo do animal homem, revirar os olhos, fazer caretas, tudo para deixar claro que aquilo não é charme nem nada, pois aparentemente um “não”, para o animal homem topster, nunca é o suficiente.

Se me faltava com quem conversar (ainda que o Phil seja ótimo de papo) e não tenho capacidade óssea para manter-me dançando ao ritmo de 150bpm, minha única distração naquele ambiente era continuar me embriagando e eventualmente trocando olhares com moças. Afinal, eu, emo, magrelo e bem vestido, claramente me diferenciava da maioria dos homens musculosos e de blusa polo, tornando-me material, senão destacado, ao menos digno de atenção.

Foi o que pensou uma menina ruiva com sorriso bobo que passou por mim umas duas vezes. Me apresentei a ela dizendo qualquer fofura que pensei ali na hora. “Você é do rio?”, ela me perguntou num sorriso, “sou sim, e você pelo visto não, né?”, respondi notando o sotaque. Ela não entendeu. “você fala inglês?”, me perguntou, e eu disse que sim, no que ela me explicou que era de Manchester e estava fazendo intercâmbio.

“Seu inglês é muito bom”, ela me disse, “aprendi com McFly”, respondi, e ela amava McFly, já tendo ido a shows e viajado quilômetros para comparecer a uma gravação de DVD. Provoquei-a por ser Jones, quando eu sou Fletcher, e a conversa evoluiu incrivelmente bem, pois ela não demonstrava o desinteresse comum a maioria das meninas nesse ambiente, que, afinal, são tão requisitadas por seres dispensáveis que acabam despejando desprezo também em seres agradáveis como eu.

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Ela não, era Eve Paper seu nome e parecia super entretida em conversar comigo, pedindo para eu explicar-lhe tudo sobre o Brasil, exceto o beijo brasileiro, o que eu ofereci para mostrar algumas vezes e ela esquivava sob a justificativa de que “na Inglaterra as meninas não beijam tão facilmente”.

Não sei como funcionam as coisas na Inglaterra, mas após muitos minutos de conversa e algumas recusas, eu pedi o celular dela e disse que precisava ir. De fato precisava, já batiam 4 da manhã e o Phil me chamava para dividir o uber. Voltei-me a ele, que estava perto da porta, e enquanto conversávamos sobre quem pediria o uber, ela me cutucou no ombro esquerdo. Conversou alguma coisa que não lembro, e em menos de um minuto a coloquei contra a parede num baita beijão gostoso de emo tropical.

“Guilherme, estamos indo”, disse o Phil, e pensei que pela segunda vez naquela noite meus amigos se precipitavam a ir embora e dificultavam que minha estrela brilhasse. “Vai na frente”, avisei sem muita convicção, e continuei agarrado à inglesa, minha primeira inglesa, aliás, minha primeira gringa, um checkpoint que há muito tempo gostaria de salvar em meu caderno mental de conquistas pessoais.

Resultado: perdi-me dos caras. Eu estava sem bateria no celular e eles sumiram completamente. Já que estava sozinho mesmo, fui me enrolando com a inglesa, que me chamou para passar a noite com ela. O amigo chileno que a acompanhara para a festa estava encalacrado com uma loira e ela estava meio sem jeito, além de estar se divertindo comigo. Passava os dias em um Hostel na Rocinha que o taxista cobrou 90 reais para nos levar, no que de imediato eu falei “oloco! por isso ninguém mais pede táxi!”.

O homem irritou-se, saiu do táxi e começou a me dizer desaforos, como “eu trabalho aqui há 20 anos”, “quem você pensa que é?”, “pede um uber aí pra tu ver se eu não quebro ele”, e eu estava tão alucinado e feliz que o ignorava inocentemente enquanto analisava cada curva perfeitamente desenhada do corpo daquela inglesa maravilhosa.

“90 reais é o preço de um hotel aqui perto”, sussurrei-lhe em inglês.

O resto da noite eu vou deixar pra ela contar pras amigas dela lá em Manchester.

;))))))

***

Corta a cena. Eva no telefone com as amigas inglesas:

– kkkkkkkkkkkkkkkkkkk amiga brasileiro nem é isso tudo

***

Essa foi a série “relatos de uma autoestima”, na qual tentei mostrar a partir de histórias e situações como constatei meu atual momento, em que estou completamente satisfeito comigo mesmo, feliz com minha aparência e alinhado com minhas próprias expectativas. Valorizo demais esse sentimento em tempos com a autocomiseração e tristeza tão em alta, e espero que, senão consegui ajudar ninguém, ao menos arranquei alguns sorrisos.

Relato #01
Relato #02
Relato #03

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