Jules e Jim (1962)

Certa vez li, ou ouvi – ou talvez até tenha pensado sozinho – que o cerne da Nouvelle Vague era uma mistura de conversas profundas, buscando novas interpretações de aspectos da vida, relacionamentos em formatos inusitados e o descaso blasé e cheio de cigarros dos franceses. Desde essa frase, entendi toda a minha paixão, ainda que um pouco preguiçosa, pelo movimento.

Pelo meu entendimento, os maiores nomes da Nouvelle Vague são Godard e Truffaut. Algo como o Cristiano Ronaldo e o Messi do cinema, ambos foram gênios com formas distintas de jogar. Se o Godard se destaca pelas montagens de seus filmes, pelas cenas e diálogos que dão postagens estonteantes no tumblr e pelos papéis magistrais de Ana Karina e Brigitte Bardot, o Truffaut destila sua genialidade em roteiros psicológicos e poéticos.

Jules et Jim (1962) ilustra perfeitamente isso. Truffaut, com apenas uma ou outra cena icônica, cria diálogos que são uma fonte inesgotável de poesia. Jules e Jim são grandes amigos cuja relação é atravessada por Catherine, uma mulher de pensamento e atitude fortes. Jules se apaixona perdidamente e casa-se com ela, chegando a ter uma filha adorável.

Continue Lendo “Jules e Jim (1962)”

A Negação da Morte

“Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.”

(Ernest Becker – A Negação da Morte)

Enxofre

nice
Cena de Somewhere in Palilula (2012)

Eu tava de cabeça baixa lendo um livro.

Ao meu lado tinha um gordinho que me apertava contra a parede do ônibus. O trânsito fluía lento e um cheiro esquisito fez-se presente aos poucos. Lembrei imediatamente de um defumador para limpeza espiritual que tive de passar em casa, mas não era bem aquilo. Não, era outra coisa com cheiro amargo de misticismo. Ainda sem levantar a cabeça, olhando para as páginas do livro, lembrei. Enxofre.

Gente.

Uma linda voz desesperada entrou na cena. “Gente, desculpa”. Levantei a cabeça. Ela usava uma máscara branca sobre a boca e o nariz, um dos magrelíssimos braços se apoiava numa bengala e o outro nas costas curvadas. Balbuciava palavras e pedia ajuda. Estava com câncer, falava de comprar fraldas, uma fralda custa vinte reais, por favor me ajuda, me ajuda, eu imploro. Eu não consigo nem comprar nada pra comer, eu tô com fome, vocês vão me negar? Eu imploro, gente, me ajuda.

E a voz dela era linda. Linda. Era firme, soava bem aos ouvidos. Só que chorada, dolorosa, com uma rouquidão de autocomiseração e desespero de partir o coração. E aquele cheiro de enxofre insuportável misturado com urina, aquela queimação nas narinas. O homem do meu lado levantou e saiu do ônibus, mesmo que não nos mexêssemos há muito tempo.

Continue Lendo “Enxofre”

Freestyle de Ideias #03

Dqpx2Z1X4AAbL-i

O Reveillon dos Emo

Vocês já pararam pra pensar que o Dia das Bruxas é o último dia do décimo mês? Na prática, na prática, o Dia das Bruxas é a verdadeira virada do ano. Tanto o é que o recebemos com uma grande comemoração gótica, com doces, de preto e rímel. O Reveillon dos Emo.

Aí eu nasci. Um bruxo, protagonista dessa porra toda, o bebê enviado pelos céus para ser emo entre os humanos e feliz entre os espíritos.

Continue Lendo “Freestyle de Ideias #03”