Foi um bom dia

Luciano andava pela rua com o ar de que alguma coisa tinha acontecido e só ele não tinha percebido ainda. Como numa final de campeonato de futebol, ou no dia seguinte ao do fim da novela. Olhava para os lados e via as pessoas andando apressadas, desconjuntadas, até dando breves corridinhas. Não eram muitas: por algum motivo, as ruas estavam assustadoramente vazias, apenas poucas pessoas muito apressadas, correndo de um lado para o outro.

Olhou de soslaio para o lado e viu um carro freando dramaticamente numa esquina. Uma mulher saía correndo dele, e as pessoas ao redor se aproveitaram da descarga de adrenalina que aquela cena havia injetado na situação pra começar a correr também – cada uma seguindo seu caminho.

Via alguns carros, poucos correndo rapidamente, mas a maioria estacionado, curiosamente com pessoas dentro deles. Alguns, nas ruas menos iluminadas, podia ver que tremiam, como se fizessem sexo. Das janelas dos que estavam abertos, ouvia sorrisos e um pouco da canção que saía dos rádios.

Todos os prédios e hotéis pareciam cheios, com as luzes acesas, muitas pessoas nas varandas, mas curiosamente não havia ninguém nas portarias. Passava na frente de uma quando olhou distraído e viu uma faxineira sentada num banco da recepção com um porteiro. Devia ser chique – o porteiro usava terno, gravata e tinha até um paninho no bolso do blazer. A moça, faxineira, mas de roupa bonita também, com a elegância peculiar das pessoas que estão felizes. Pareciam ter se aprontado especialmente para estarem ali, os cabelos, os detalhes, os sorrisos. Conversavam de mãos dadas e olhares fixos nos lábios um do outro.

Luciano continuou andando, já nem sabia mais pra onde. Provavelmente um meteoro cairia na cidade, ou uma dessas empresas de energia nuclear teria dado merda, ou um tsunami até. Alguma desgraça devia estar na eminência de acontecer. Olhou rápido para um bar e viu uma mesa de velhos, todos com camisas dos seus times de futebol, tomando um copo de cerveja e rindo com os amigos. Aproximou-se dali e pode ver, dentro do bar, uma TV ligada no jornal: os dois âncoras, um homem e uma mulher, ele com toda a roboticidade comum aos âncoras de jornal, ela com a timidez das mulheres pegas de surpresa, protagonizavam um pedido de casamento.

Diante daquela cena de alegria tão intensa, todos os velhos fizeram um comovente silêncio. Pegaram suas carteiras e, observando fotos 3×4 que carregavam ali, transpareceram uma emoção diferente de qualquer coisa que Luciano já presenciara. Linda, emocionante, a cena pareceu um tanto estranha pela instintividade – para aqueles homens, o ritual foi como comemorar um gol ou fechar os olhos ao dormir; simplesmente acontecia.

Levantou-se e saiu do bar procurando por alguma explicação. Começava a se entregar a um desespero, sedento por qualquer tipo de informação, uma explicação que fosse! Passou por uma praça, onde uma cena lhe chamou a atenção: viu dois casais, duas meninas e dois meninos, cada um beijando seus iguais. Os dois conviviam, não juntos, é verdade, pois cada um estava unicamente intrigado com a própria conversação, mas em plena harmonia entre si, numa aura de paz e cumplicidade. Sob as luzes pálidas da praça, trocavam olhares e palavras baixinhas.

Continuou em frente, ate que passou próximo a uma igreja abarrotada de pessoas. Ora, é claro! “Vamos todos morrer e só eu não me liguei disso!”. Se aproximou para ver se conseguia alguma informação. Percebeu o quão estranho seria perguntar “por que você está aqui?”, mas a situação toda era tão estranha que não havia outra alternativa.

– Por que – respondeu uma idosa – eu aprendi a amar.

Aquilo lhe deu um baque. “Religiosos sempre falando de amor!”

Saiu da igreja e estava tomado de impaciência, angustiado, uma vontade terrível de gritar. A estranheza dos últimos instantes lhe fizera perceber que com certeza alguma coisa estava errada e só ele não sabia o que era. Mas ninguém podia lhe dizer! Estavam todos ocupados demais!

Continuou andando já sem saber para onde, até que percebeu que aquele lugar não lhe era de todo estranho: frequentara-o com frequência até alguns meses antes, quando uma ex-namorada morava por ali. Depois que terminaram, percebeu que não havia mais motivos para voltar, apesar de gostar do lugar. Tinha um pequeno parque num quarteirão depois da casa dela, onde eles passaram tardes bonitas nos últimos anos.

Sentou-se no balanço em que deram o primeiro beijo e esperou pelo evidente apocalipse que, era claro, se aproximava. O céu estava com nuvens densas e escuras, mas o sol, se pondo por trás delas, dava uma coloração bonita ao fim da tarde. Luciano se permitiu esquecer o desespero que passava há instantes e entregou-se a um saudosismo laranja, lembrando de tudo o que sentira naquela praça.

Foi então que encarou o chão por alguns instantes, desnorteado, enternecido, encarando o mato verde, o balanço azul. Num suspiro, levantando a cabeça, pode ver que sua ex se aproximava andando rapidamente. Sentou-se no balanço ao lado dele, segurou-lhe as mãos, e disse:

– Ainda bem que você me ligou.

– Eu… te liguei? – perguntou assustado, pois não se lembrava de nada de mais de uma hora atrás.

– Sim, seu idiota. – ela respondeu com um sorriso estampado – eu também… eu também ainda te amo.

Aquilo fez Luciano entender tudo. Era claro! Evidente!

O amor enfim começou a funcionar.

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***

Estava procurando em meus arquivos algo para postar pra vocês, visto que não tenho tido grandes aventuras em vida e minha criatividade está sendo direcionada para outras empreitadas, e acabei encontrando este texto de 20 de janeiro de 2014, que decidi postar aqui pra vocês. Ele foi revisado e editado, fiz um monte de mudança, mas vocês ainda podem encontrar o original aqui.

5 comentários em “Foi um bom dia”

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