A inerente beleza da minha vida

“Pangloss ensinava metafísico–teólogo–cosmolonigologia. Provava admiravelmente que não há efeito sem causa e que, neste que é o melhor possível dos mundos, o castelo do senhor barão era o mais belo possível dos castelos e a senhora a melhor das baronesas possíveis.

Cândido, em pânico, desvairado, todo ensanguentado e palpitante, dizia consigo: “Se este é o melhor dos mundos possíveis, como não serão os outros!””

Às vezes eu me pergunto se tudo não passa de um preciosismo, de uma escolha meticulosa de narrativas para ornar a vida.

Eu me pergunto se o fato de escrever a minha vida há tantos anos – já são 11 agora – não me transforma num otimista do passado, um nostálgico imediato. Se no final das contas eu não fico enfeitando os acontecimentos com lantejoulas e brilhantina, como se a vida só dependesse da interpretação que eu desse para ser melhor.

Por que, ou é isso, ou eu tenho uma sorte descomunal, uma sintonia singular com o universo que me faz caminhar apenas pelos mais bonitos de todos os caminhos possíveis.

Cosmos (do grego antigo κόσμος, transl. kósmos, “ordem”, “organização”, “beleza”, “harmonia”) é um termo que designa o universo em seu conjunto, toda a estrutura universal em sua totalidade, desde o microcosmo ao macrocosmo. O cosmo é a totalidade de todas as coisas deste Universo ordenado, desde as estrelas, até as partículas subatômicas.

Eu cito a noção de Cosmos, dos gregos, como um mero engodo filosófico; na realidade, a cada dia me parece mais urgente a noção de que eu frequentemente utilizo a filosofia apenas enquanto engodo, uma argumentação bonita para dar vazão a sentimentos que talvez eu não devesse, para empurrar com a barriga problemas que mereciam atenção imediata.

Mas todas as vezes que eu pareço aceitar essa ideia e desvendar meus olhos dessa maquiagem argumentativa, a vida, o alinhamento cósmico, o universo se expressando numa sinfonia ordenada, vem imperiosamente mostrar que minha vida pulsa na mais sortuda das batidas.

Sabe quando você é contrariado, mas pouco tempo depois percebe que “foi melhor assim”?

Quando isso é uma argumentação otimista, uma nostalgia do passado imediato? E quando isso é, de fato, uma conclusão sensata acerca do desenrolar da vida?

A primeira vez foi no ensino médio. Quando todos os amigos passaram direto para faculdades públicas – alguns para os cursos que desejavam, outros pra qualquer coisa, só pra dizerem que passaram. Eu não passei pra nada. Nem pro que queria, nem pra qualquer coisa. Mas aí, o ano que tive de frequentar o pré-vestibular foi, de longe, o ano de maior desenvolvimento intelectual da minha vida. Estudava de 7h às 19h, de domingo a domingo, e nunca aprendi tantas coisas quanto naquela época. Entrei não para qualquer coisa – entrei para o melhor curso possível, após uma percepção que eu só vim a ter ao longo daquele ano. Foi melhor assim.

E todas as meninas que me dispensaram, que partiram meu coração, e eu não enxergava em aspecto algum da vida as razões para estes desfechos? Foi a incessante busca pelas razões, pelas melhorias, pelas voltas por cima, que me estimularam a me tornar a pessoa que sou, com o conhecimento e a sensibilidade que me destacam da maioria dos homens imbecis de minha geração. E aí, com o passar dos meses, concluía essas lembranças sempre com a máxima – “foi melhor assim”. Duas engravidaram; uma mudou-se para os EUA; uma cresceu e ficou muito mais alta que eu; uma casou-se; uma simplesmente encontrou um amor que lhe cabia melhor – e de todos esses desfechos eu sempre notei que o universo me poupava de maiores dores de cabeça.

Essa ordenança cósmica já é tão repetida em minha vida que posso senti-la se insinuando, mesmo que nada me sugira isso. Não sei se é no ar, no espírito, ou até mesmo na mais simples irrigação de minhas veias. Tantas e tantas vezes as pessoas me apressam, me dizem que devo fazer X ou Y, e eu apenas sorrio de lado, viro o olhar, e digo “calma, calma. o universo resolve isso pra mim na hora certa”.

O que me levou a passar 8 meses dizendo “preciso comprar um celular” sem mover uma palha para fazê-lo? E então, naquela segunda-feira em que eu disse “é isso! comprarei nesta quarta!” meu irmão, que estava no Canadá, me mandou a mensagem “estou indo para o Rio terça-feira. Quer que eu leve algo?”?

Eu sinto muita gratidão, mas isso não é o suficiente. Existe algo em mim que se empenha em entender as razões, as gêneses da sorte. Por que, independente de classe social, de privilégios, de retrospectos, por que a minha vida segue repetidamente os melhores caminhos possíveis? Por que o universo me protege das mais variadas desgraças? Por que os trovões sempre abatem as pessoas ao meu redor e nunca a mim?

Por que o universo é tão benevolente comigo?

As orações da minha mãe? A seleção cuidadosa de narrativas otimistas? O privilégio de classe de um branquelo cis classe média? O discurso confessional moldado pela construção de um Eu potência, de um Eu vendável? 

Escrever sobre minha própria vida teria me viciado em embelezá-la ou ela é mesmo inerentemente linda?

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2 comentários em “A inerente beleza da minha vida”

  1. Talvez seja exatamente esse teu reconhecimento e tua apreciação pelas coisas boas na tua vida que a torna tão bonita

    Te acompanho desde a época do Nerd Calculista e acho incrível essa tua evolução, de alguém que quando a vida acontecia dizia ‘lol deu merda’, pra alguém que hoje rotineiramente diz ‘holy shit minha vida é maravilhosa’

    Ainda mais hoje, que é tão difícil ver gente genuinamente feliz assim e qualquer lugar que tu se vire sempre tem uma chuva de pessimismo autodepreciação e isso é tão /cansativo/

    De verdade, fico muito feliz por ti ❤

    Pode ser sorte, pode ser o universo, pode ser Deus, mas com certeza tu também tem uma parte nisso

    Pega teu raio de sol e faz as estrelas se alinharem por ti

    *:.。.\( * °v° *)/☆゚. *。

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