Sua Alegria Foi Resenhada

Sente só. Tá fazendo frio, né? Isso só pode significar uma coisa: as bandas tristes estão lançando discos novos!

***

Eu ando monotemático. Se o motorista do uber me der bom dia, ele que me aguente: vou falar de Fresno a viagem inteira. Daí que eu escrevi essa resenha por meio de notas. Não “parei” para escrevê-la – ouvindo as músicas, ao longo dos dias em que eu ouvi essas músicas, pensamentos me saltaram, e precisei escrever.

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Se tem uma coisa bem estabelecida em “Sua Alegria Foi Cancelada” é que cada música corresponde a uma faceta bem específica e representativa da banda. Cada pessoa imagina a Fresno de um jeito diferente, isso por que ela é cheia de personalidades, e com 20 anos de banda é bom mesmo que seja assim.

Depois de sete álbuns, eles puderam tranquilamente buscar referências em si mesmos. De um jeito atualizado, refinado, fazer de um jeito novo o que já fizeram e deu certo. Se nas entrevistas perguntarem suas principais influências, a resposta será “em nós mesmos”, “no que esperam de nós”, “no que no nosso imaginário não virou Beeshop, nem Visconde, virou Fresno por que tem cara de Fresno”.

LANÇAMENTO

Todas as ativações para esse disco foram meticulosamente pensadas e incrivelmente executadas. Eles reuniram uma equipe de gente muito foda pra desenvolver toda a estratégia de lançamento e branding do disco. Nessa matéria aqui da Advertência os marketêro explicam detalhadamente. Criaram um grupo no Face pra reunir os fãs, gerar memes, criar burburinho, depois fizeram diversas ativações criativas por campanhas e influencers. Manusearam com maestria a expectativa dos fãs e os utilizaram como evangelizadores num baita case de sucesso.

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A identidade visual inteira é pica – p&b, colagens de rostos e #CCFF00. Essa identidade dialoga de uma forma incrível com todo o disco. Não apenas ilustra, complementa. Por meio dela, a temática da exposição, da fama, de áudios e vídeos “vazados”, de vidas moldadas e descontinuidades – toda uma narrativa que estava escondida, mas vem à tona pela campanha.

Um amarelo que não é amarelo. É um tártaro fluor, mas que passa essa impressão de uma cor NÃO NATURAL. A gente não sabe mais se nossas emoções são coisas que a gente sente de verdade, ou se é o que roteirizamos para sentir nos nossos filminhos.
Lucas, sobre o CCFF00.

DE VERDADE

 

Pessoalmente, “De Verdade” corresponde à minha Fresno favorita. Se me pedirem pra mostrar uma música deles, será essa. Mesmo com a letra de aceitação, agradável, do conforto de estar bem consigo, ela é triste, melancolicamente triste. Tinha como ser melhor?! Não é uma power tristeza, não é uma superação. A bpm é baixa, a voz é sussurrada, o clipe é nublado. A letra é tão incrivelmente confortável que eles podem extrapolar na tristeza de todos os outros aspectos.

Tudo isso executado com dosagem e maestria, o grande ápice sendo numa guitarrinha esperneando no final, um sussurro esticado, a construção de um ambiente – bem American Football, bem Copeland, emo raiz, emo até não dar mais.

Essa música te abraça. Nem todo mundo é De Verdade, mas quem tá ouvindo Fresno é. E quem é, sabe.

MATHEUS, O DONO DAS MELHORES PLAYLISTS DO SPOTIFY

Chamei meu consagrado que mais entende de música para compartilhar suas impressões sobre o disco. Vejam o que ele disse mas, mais importante do que isso, ouçam suas playlists:

“O Arrocha Mais Triste do Mundo é uma música que traduz bem isso [o momento da Fresno]. Ela é uma faixa, de certa forma, minimalista. Não, na real, mais que minimalista, ela é uma faixa crua mesmo. No instrumental, mas também no vocabulário. Ela apresenta de uma forma muito concreta as referências que a banda usou pra chegar nesse projeto. Ela é eletrônica, mas é rock. Têm um quê gringo mas, ainda assim, é muito brasileira.

Se a primeira faixa é mais calma, We’ll Fight Together já chega dando porrada. É uma música que gira em torno desse riff de guitarra mais pesada e que vêm com aquela bateria mais marcada. Falando em bateria, a gente tem que falar do Guerra também, naturalmente. Que cara excepcional. Toda vez que eu ouço esse disco eu percebo o quão bem escrito e bem performado é o instrumento, sabe?”

SUA ALEGRIA FOI CANCELADA

Os dias em que você termina seus romances são os dias em que você mais pensa na sua vida. Conforme vai se ficando mais velho, você já reconhece o sentimento. As dores. As formas de lidar. A nota dura no piano. A completa entrega ao drama. A manhã gelada, com o sono perturbado, o amargor de se acordar sem vontade nenhuma. Eu tenho 24, já passei por isso umas 5 vezes. Muito além do meme, essa música é Hello Darkness, my old friend!

Se tem uma coisa que eu gosto são músicas que chafurdam na dor e no drama dos términos. Talvez por estarem todos bem resolvidos e felizes, o sentimento pôde ser feito quase como um jingle publicitário – gruda, tem personalidade, chama atenção.

CONVICÇÃO

Eu pensei em dizer que não gostei de Convicção. Não é uma palavra sonora; é feia, na verdade. Sei lá. Não puxa uma música inteira. Também não coaduno muito com essa história de exaltar a convicção – esse na real é o mal pernicioso de toda ignorância e fascismo. Convicção demais é bobagem. Mas pensei, só. Nem cheguei a dizer. Falar mal de um riff desses? Ademais este blog é um local elogiante.

CADA ACIDENTE

Cada Acidente é incrível. É deliciosa. E o Lucas inaugurou um novo lance vocal que a gente não tinha visto, e olha que ele já mostrou um monte. Além disso, gestacionou essa thead irada sobre o tempo:

QUANDO EU CAÍ

A pedrada vem sempre na penúltima. Só que, dessa vez, veio diferente. Não tá falando de amor, nem de dor – é uma declaração aos fãs. Que mimo, né? Quem não é fã pode ouvir como um emaranhado de palavras de superação, um relacionamento intenso qualquer. Mas quem conhece, sabe. Ele tá falando dos fãs, e mais do que isso – do ato de transformar a dor em arte.

Lembro muito daquela brisa, algumas vezes já exposta aqui no blog, de que transformar a tristeza em arte é a melhor forma de terapia: dá uma “utilidade” imediata a toda aquela dor, curando quem faz e quem consome.

Com referências a si mesmo – “meu corpo é poeira, minha voz é trovão” – ele vai tentando lembrar o fã de tudo o que já passaram juntos, todas as narrativas que a banda compartilhou conosco. E diz – eu faria outra vez, mesmo com os percalços, mesmo com vocês falando do Tavares o tempo todo, mesmo com o Bell falando merda por aí, eu faria tudo por que essa é minha terapia e é a de vocês também, então worth it.

UM BREVE DIÁLOGO COM MEUS FÃS

E eis que fui pra casa duma morena após o trabalho. Botei aquele Fresnão pra tocar, já que eu não beijo quem não gosta de Fresno. Papo vai, papo vem. Calha de a gente só se beijar quando tá tocando o finalzinho de Quando Eu Caí. Eis que nesse momento agi como um Guilherme em essência – interrompi o beijo, quebrei a quarta parede e comentei com meus espectadores: Que trilha sonora pra esse beijão, ein?

Puxando minha cabeça, como quem diz, é, seu filho da PUTA, então não estraga e me BEIJA caralho, terminamos o beijo.

ALONSO, O EMO MORENO-LORO

Matheus Alonso, o dono do humor depreciativo mais perigoso do mundo, bloggeiro de longa data, vloggeiro sem face nem sombra, disse umas palavrinhas sobre o fim do álbum:

“Meu destaque vai para a parte final do álbum, que é de deixar qualquer ouvinte desavisado completamente estatelado no chão, reflexivo e cabisbaixo independente da vida que ele leva. Amo escutar músicas/álbuns tristes para facilitar a absorção da melancolia que me atinge vez ou outra, mas ao escutar faixas como Quando Eu Caí, Cada Acidente e a faixa-título, eu chego até a pensar se eu realmente estou bem ou se venho me passando a perna esse tempo todo. E até pra isso o Lucas (sou íntimo já) tem uma resposta pra mim: Eu Não Sei Lidar, faixa que encerra o álbum e me deixa estatelado no chão igual o ouvinte desavisado. Eu sou o ouvinte desavisado.”

***

Esse é um dos melhores discos da Fresno. Ele é incrivelmente preciso, representativo, bem pensado, tecnicamente irretocável – não há uma música sequer que não devesse estar ali, que não cumpra uma função necessária. Aliás – por que não dizer? – não há uma música ruim. Todas apresentam coisas novas, criatividades, trejeitos de uma banda que não cansa de se reinventar. Senti uma pequena falta de um “hino”, daqueles eternos, Cada Poça, Milonga, Vida – Quando Eu Caí tenta ocupar esse posto, mas não chega lá.

Pra finalizar, eu queria deixar essa reflexão aqui:

Vale a pena ler de novo?
Infinito Inefável, resenha do álbum “Infinito” que escrevi em 2012.
No plágio de uma bela melodia, texto de brisas sobre Milonga.
Spoiler: não, não vale.

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