Ninguém vai se lembrar de mim

Quando eu criei um blog, aos 11 anos, o fiz pura e simplesmente por querer imitar os blogs que eu lia. Geralmente produzidos por pessoas muito mais velhas e com motivações diversas, a minha principal motivação, tal qual a criança que hoje cria um vlog pra imitar o Luccas Neto, era simplesmente imitar as pessoas mais velhas que eu gostava. O Izzy Nobre, por exemplo, morava no Canadá, e fazia da sua vida algo tão incrível que, de alguma forma, eu senti que também poderia fazer.

Não tardou e minhas principais referências minguaram – aqueles que não deletaram seus blogs, como o Efeito Ázaron, acabaram se tornando pessoas incrivelmente chatas, caso do próprio Izzy.

As referências se foram. O blog permaneceu. O ato de escrever, esse psicólogo recém desvendado, rapidamente tornou-se parte da minha personalidade – eu me tornei o bloggeiro, o menino de 14 anos que, com um computador, num quarto sem janelas, conseguiu uma audiência de mil leitores diários, conseguiu viajar para encontrar fãs, conseguiu rendimentos em dólar, conseguiu sair na matéria da Capricho.

Em algum momento eu já nem sabia direito o motivo de estar escrevendo.

No Fotolog, que mais tarde virou um Tumblr, eu comecei a escrever poesias e confissões. Era uma escrita introspectiva, envergonhada, muito envergonhada. Começou por ler os textos do Lucas Fresno no Fotolog (“o romance está em apuros”) e sentir que podia fazer o mesmo. Mais uma vez, quis imitar quem eu curtia. Mais uma vez, o blog dele acabou, o meu permaneceu.

Depois de um tempo, passou a existir uma diferença muito clara pra mim: existe o texto que faço para ser lido e o texto que faço pra mim. O primeiro tem seu objetivo bastante claro. Mas o segundo, por mais envergonhado que me faça sentir, por mais que eu relute em admitir, eu também quero que seja lido. Eu não digo. Mas quero que leiam.

Por quê?

Escrever, com o tempo, eu descobri a motivação. Digo que é minha lua em virgem, que cria uma metodologia pra entender os sentimentos, que preciso verbalizar, colocar em palavras, mu-i-to-bem-ex-pli-ca-di-nhas. Talvez assim eu consiga lidar um pouquinho melhor com todas as informações que sou obrigado a digerir todos os dias, talvez assim, lá no futuro, eu releia e entenda os caminhos pelos quais perpassei pra chegar onde estou.

Eu escrevo porque preciso. Mas por que eu quero ser lido?

Um amigo estava falando isso esses dias. Ele escreve sempre, mas não mostra pra ninguém. “No máximo mando pra alguma menininha, pra impressionar”, argumentou. Eu não mando texto nenhum pra menininha. Eu boto no blog, se ela quiser, ela que leia o blog. Eu gostaria, mas não mando.

(Só pra Carol)

Andei pensando isso.

Eu quero ser lido porque tenho a impressão de que essa é a única coisa que eu sei fazer.

Eu quero ser lido porque ninguém sabe como eu me sinto, como eu penso, como eu enxergo.

Eu quero ser lido porque ninguém vai se lembrar de mim se eu não escrever.

Eu quero ser lido por que eu preciso?

Nesse exato instante, é noite fria de segunda-feira, estou pouco a pouco sendo consumido por uma tristeza nojenta, uma melancolia insidiosa que tem me perseguido nos últimos dias. É por causa dela que sou levado a escrever. Está em ser lido o remédio pra ela. Não o definitivo – mas o dorflex, que não cura a escoliose, mas diminui a dor nas costas.

Está em ser lido a devida atenção que a dor merece, a anestesia que me faz pensar, por um instante, que talvez tudo valha a pena, que talvez a vida não seja inútil, afinal; não seja um breve suspiro. Está em ser lido a consumação da tristeza que virou arte, a eficácia da dor, que não vai mais morrer amargurada dentro de mim.

Tenho textos pra postar na frente desse. Mas preciso postar esse, preciso dizer pro mundo: ando triste, olhe aqui, mas não ligue não; o tempo passa, só ele pode curar, eu sei, eu sei, não há nada que você possa fazer; mas leia meu texto, leia, que a cada pessoa que me diz “li teu texto”, ah, sei lá, me parece um abraço!

Ah… e vai que, meio sem querer querendo, eu consiga ajudar alguém também?

***

Eu quero mesmo é que tudo exploda. E que seja luminosa, a explosão, que ecoe pelos quarteirões e faça tremer teus vidros, quebrar tuas janelas. Que perturbe teu sono e te faça ir pra rua pra ver o que aconteceu. Você não vai me encontrar lá. Eu não sou o piloto. Não sou o passageiro. Não sou o pedestre. Eu sou o acidente, e eu sou grave.  Lucas Silveira, Fotolog. (2007)

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