Il terzo incomodo

Estava lendo A Cartuxa de Parma, do Stendhal, numa ensolarada manhã de quarta. O romance é um clássico de formação, ou seja, acompanha o personagem desde a tenra adolescência, ao longo de toda a sua obtenção de conhecimento e experiências, até a meia-idade.

Em determinado momento, Fabrice, o personagem principal, passa a ser alvo de ciúmes do conde Mosca, que é casado com sua tia. Os ciúmes de Mosca são estimulados por picuinhas da nobreza francesa, de forma que em pouco tempo passa a ser um sentimento imperioso em sua relação com a duquesa.

“A solidão tornará essa situação decisiva, e aliás, uma vez com a duquesa longe, o que será de mim? E se, depois de muitas dificuldades superadas, eu for mostrar meu rosto velho e preocupado, que papel representaria no meio dessas pessoas loucas de felicidade?

“Aqui mesmo sou eu outra coisa além do terzo incomodo (essa bela língua italiana é totalmente feita para o amor)? Terzo incomodo (um terceiro presente que incomoda!). Que dor para um homem inteligente sentir que representa esse papel execrável e não conseguir se decidir a levantar-se e ir embora!””

Achei maravilhoso o conceito de Terzo incomodo. Não só por tê-lo vivido na pele certas vezes, mas também por imediatamente recordar de todas as grandes histórias que se pautaram exatamente nessa situação.

Talvez seja esse o mais pérfido de todos os desfechos românticos. Perceber-se transformado em um incômodo em sua própria relação, com sua companheira te substituindo por um terceiro que lhe proporciona muito mais alegria. Ficou triste? Não esperava isso de sua paixão mais íntima e longeva? Foda-se, é problema seu. Você agora é um incômodo, lide com seus próprios problemas.

Se fosse uma questão de apenas colocar o ego de lado, seria doloroso, sim, mas vai além disso. O pior é a consciência de que eles dois serão imediatamente felizes, enquanto você ainda passará por um longo e doloroso trajeto solitário. Uma solidão opressiva, imperativa, a todo tempo radicalizada pela imagem dos dois juntos, por cenas deles sorridentes, se beijando, felizes, assumindo-lhe o pensamento a todo instante.

Aliado a isso, você se agarra ao lamaçal da autocomiseração. A raiva de ser traído, trocado, descartado, rapidamente se transforma numa confortável pena de si mesmo, que lhe dá o calor que você outrora procuraria nos braços de seu xodó.

É uma situação tão complicada que, visando instruir meus caros leitores sobre como proceder, trouxe para cá 3 reações distintas ao terzo incomodo:

1- Jules e Jim

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Como já comentei nesse texto aqui, Jules e Jim conta a história do romance dos dois amigos com Catherine. Casada com Jules, Catherine tem um filho e constrói uma família feliz. Contudo, aos poucos, ela se apaixona por Jim, o melhor amigo de Jules.

Jules, percebendo ter-se tornado o terzo incomodo, toma a atitude mais inusitada e extraordinária possível:

“Jim, Catherine não me quer mais. Morro de medo de que ela saia da minha vida. Da última vez que vi vocês juntos, pareciam um casal. Jim, ame-a, se case com ela, e deixe-me vê-la. Se você a ama, pare de achar que sou um obstáculo.”

Ele procura amenizar o incômodo de sua presença pedindo, encarecidamente, para ser ignorado na medida do possível. Adota para si uma posição de observador que pouco ou nada interfere no romance dos dois. Consegue abstrair completamente de seu ego, e em momento algum chega a sentir pena de si ou tristeza. Resigna-se com sua nova posição, abre mão do calor de seu xodó, e adota uma postura praticamente inviável fora da ficção.

É justamente por ser uma atitude extraordinária e inviável que o filme inteiro pauta-se nela. Fora da ficção, dificilmente alguém reagiria tão friamente a esse desfecho.

2- Um Homem Fiel

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O último filme de Louis Garrel, segundo sob sua direção, apresenta uma outra reação ao terzo incomodo. A primeira cena do filme já é uma trulhetada: ao chegar em casa, Abel é esperado por sua mulher. “Abel, precisamos conversar. Estou grávida”. Ele reage naturalmente, pergunta se é menino ou menina. Ela diz que não é essa a questão.

“O bebê é do seu amigo Paul. Estou tendo um caso com ele há 6 meses. Nós decidimos nos casar. E, como a barriga está crescendo, pretendemos fazer isso no dia 26 de novembro. Precisamos que você saia de casa antes desse dia.”

“Que dia é hoje mesmo?”, pergunta Abel. “14 de novembro”, responde Marianne. Atônito, Abel apenas aceita e se afasta. Passa anos sem vê-la. Ruptura total. Sem raiva, sem drama. Só voltam a reatar os laços quando, nove anos depois, Paul morre e eles se encontram no funeral.

Essa é provavelmente a reação mais comum ao terzo incomodo: afastar-se melancólico, mas resignado. Para que discutir? O que há de se fazer? O mais nefasto que pode-se sentir, neste caso, é justamente aquela torcida silenciosa, aquela esperança pérfida de que dê tudo errado para os pombinhos. Não pela esperança de reconquistar a pessoa, mas pela vingança simbólica de eles não triunfarem em cima de sua derrota. É vingativo, é ruim, é pérfido, mas dificilmente se escapará desse sentimento.

Qual terzo incomodo jamais sentiu um prazer sádico ao imaginar a pessoa de volta aos seus pés, admitindo a culpa, acusando o engano e implorando uma segunda chance? Quem não se anestesiaria com essa imagem, quem não tiraria desse devaneio um sorriso em meio a tanta tristeza?

Abel, nove anos depois, no funeral de Paul, vai encontrar novamente Marianne e voltar a escrever história que anos atrás ela pusera um ponto-e-vírgula.

3- Ted Mosby

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Esses dias vi jovens – somente jovens para fazer esse tipo de coisa – discutindo uma enquete de quem era pior: Ted ou Ross. Há de ser muito idiota para sequer se perguntar isso. Ted é um romântico que vive no mundo das ideias; Ross é um idiota, inseguro, machista, mimado e infantil.

A grande prova disso se dá quando Ted é largado no altar. Meses se passam e ele apenas se entrega à comfortable sadness, à autocomiseração. Em determinado episódio, todos os amigos o estimulam a ir até a casa da Stella e gritar com ela. Simplesmente gritar. Fazem-no sentir a raiva que até então ele não sentira pois estava submerso na pena de si mesmo. Fazem-no sentir uma raiva que ele não se sentia no direito de sentir.

E aí eles pegam o táxi com o Ranjit, e durante todo o percurso Ted está explodindo em ódio, vermelho, com dedo em riste, imaginando tudo o que dirá para Stella, que o abandonara no altar para voltar com o ex.

À porta da casa dela, ele adota um outra postura ao terzo incomodo: ao ver Stella abraçando o ex-marido e a filha dos dois, ele se derrete. Percebe-se enquanto um incômodo. Percebe-se como o vilão daquela situação. Ele nunca quis, nunca pretendera ser o vilão. Mas a vida lhe encarregou este papel e o único antídoto para sua vilania era resignar-se silenciosamente em sua tristeza.

***

A vida é injusta e os amores podem ser cruéis. Fazem-nos sofrer coisas que não merecemos e nos colocam em situação que não gostaríamos de estar. Além disso, nem tudo é preto no branco, Dom Casmuro serve para nos mostrar isso. Os tons de cinza, as incertezas, sempre deixam mais tortuosos os caminhos do coração.

Infelizmente os sentimentos das pessoas são tempestuosos assim mesmo e não há como fugir, seja você um conde francês no século XVIII, seja você um emo tropical de 24 anos. Tem vezes que você precisa apenas respirar fundo, guardar o incomodo todo para si, e seguir em frente.

Por mais injusto, cruel e doloroso que isso possa ser.

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