Laranjinhas

(Um texto pré-pandemia)

Eu diria que o grande lance da vida não é fazer de tudo. Muito menos fazer as coisas o tempo todo. Na realidade, a vida é sobre estar disposto a fazer de tudo, mas não sempre – na hora em que o universo lhe requere disposição.

***

Dia 1

(No almoço.)

– Vamos lá pra casa?
– Pode ser, eu só preciso passar rapidinho na minha.
– E se a gente fosse de bicicleta?
– Boa! Você já tem o aplicativo?
– Não, baixo enquanto tu tiver pegando suas coisas.

***

Dia 7

Sábado de sol e céu azul, um dos primeiros dias do ano. Acordei 7 horas da manhã por essas ilusões de início de ano, quando nos convencemos de que iremos mudar hábitos que carregamos desde a infância, e por algumas semanas acordamos às 7h e confirmamos para o universo que tudo é possível, só depende de foco – contanto que ele só precise durar alguns dias.

Ainda era um tempo de esperança, então acordei às 7h e fui para a casa da morena. Como eu era fofo, e sabia que ela estaria de pijama e enremelada quando eu chegasse, levei café da manhã. Cheguei e ela já estava até vestida, morrendo de fome, engoliu o café da manhã como se o tivesse conquistado após uma briga com 15 maconheiros.

– Vamos pra praia de bicicleta?
– Vamos! Vê o caminho aí no Maps enquanto eu passo protetor.
– Nossa, que caminho doido.
– É que ele está pegando o da ciclovia.
– Você sabe que lugar é esse?
– Sim, temos que dar a volta no cemitério, aí acho que tem um túnel.
– Oloco! Você está pronta pra isso?
– Acho que com ciclovia é fácil.

Aquela aventura estava muito além de nossas capacidades. Mas, sem saber que era impossível, fomos lá e fizemos. Como em um jogo online em que você observa os noobs atacando inimigos muito mais fortes, mesmo estando completamente desguarnecidos, e imagina que criança sem a menor cognição ou desenvolvimento motor deve estar por trás daquela tela. Às vezes, a criança é você.

Passadas as primeiras aventuras, as quais desbravamos com o êxito de uma expedição portuguesa, descíamos uma ladeira em Copacabana, no meio dos carros, pneus em chamas. Começamos a seguir pedalada a pedalada uma completa estranha que, sem nada dizer ou fazer, aceitara ser nossa líder. Se ela atravessasse, atravessámos. Mas nossa! Mesmo no sinal aberto?

Pior seria se a perdêssemos de vista.

– Eu sinto que evolui alguns níveis na minha habilidade com Bike, sabia?
– É memo?
– Uhum. Como se, num jogo, eu tivesse ganhado mais uma estrelinha.

Mais tarde, naquele dia, eu tentaria sem muito sucesso subir uma ladeira.

A estrelinha, após piscar 3 vezes, sumiu da tela.

***

Dia 15

Boné para trás, sem camisa, de chinelo e bermuda. A praia estava linda aquele dia, e sob o céu laranja eu voltava pela orla de Botafogo, passando pelo Flamengo, até chegar em meu castelo Cateteano.

– Não, é que agora eu sou ciclista, né.
– Tô vendo, com esse boné pra trás.

Ajeitei o boné e os óculos escuros. Gostaria de ter uma munhequeira para ajeitá-la também.

– Pô, só hoje foram 8 quilômetros.
– Isso tudo?!
– É, pois é. Em vinte minutos.
– Tu vai ficar mais magro ainda.
– E com o bumbum durinho.

***

Com 8 anos, época que morei em São Paulo, eu ganhei uma bicicleta. Meus pais tocaram o interfone, meu irmão atendeu. Disse que nos chamavam para descer no carro e ajudar com as compras. Meus pais são as pessoas mais previsíveis e burocráticas do mundo, então achei que era só isso mesmo. Chegando lá, ao lado do carro… uma bicicleta linda, novinha, vermelha!

Dali em diante eu andava de bicicleta todos os dias. Agora eu fazia parte do privilegiado grupo que podia brincar de polícia e ladrão de bicicleta. Minha mãe não me deixava ter armas de brinquedo, o que já depreciava um pouco a minha participação, mas agora, sob rodas, as pessoas iriam me respeitar.

Foi logo no segundo dia que, por o freio ainda estar muito duro, eu bati com toda a força na parede. Por instantes consegui ver o osso de minha canela. Depois, sem nem doer tanto, o sangue.

A responsabilidade de andar sobre rodas só veio bater mesmo quando eu joguei água.

***

Dia 21

Ser adulto é uma desgraça. O que corrói a alma nem é pagar os boletos. É viver refém da expectativa por eles. Você pode estar perdido no deserto e ainda assim hesita um pouco e pondera brevemente se deve mesmo comprar uma água.

– Sabe, eu me pergunto até quando esse lance vai ser divertido.
– Acho que vai diminuir, mas vai continuar sendo maneiro.
– Será? Sinto que vai se tornar burocrático.
– Como assim?
– Cada andada de bicicleta é uma passagem de metrô que eu economizo.

***

Dia 31

Ok, então é isso. A gente não pode mais adiar. Empurramos com a barriga enquanto era possível, mas todos já estão notando, já sabem como que é. Nós precisamos assumir. Não é como se eu não quisesse, é que eu não sei se estou pronto para assumir essa responsabilidade agora. Será que é isso que eu quero pra minha vida? Será que está na hora certa? Eu não estou jovem demais? Às vezes eu penso que eu poderia investir melhor o meu tempo e energia, sabe? Mas ao mesmo tempo é tão divertido, essa coisa que nós temos. Sorrimos tanto juntos, nos sentimos bem. Vai dizer que você também não se sentiu melhor depois daqueles dias?

– São 18 idas à praia.
– O que?
– Eu preciso ir e voltar da praia 18 vezes para que o valor que eu vou pagar de anuidade da Bike Itaú valha a pena.
– Como assim?
– O aplicativo é 140 reais. 18 idas à praia são 36 passagens de ônibus. 140 reais.
– Você é bastante econômico, né?
– Eu odeio pagar anuidades.

Uma consideração sobre “Laranjinhas”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s