The Human Condition: Filme tem 9h47m e você devia vê-las

Janus Films — The Human Condition

Épicos relatam a jornada de um herói honrado contra as malvadezas do mundo. Por mais que a estrutura seja sempre parecida, dificilmente esses filmes não são maravilhosos. Imagine você, então, um épico de quase 10 horas sobre um japonês pacifista no meio da Segunda Guerra Mundial.

Essa é a história de Guerra e Humanidade (The Human Condition), o épico de Masaki Kobayashi, um dos filmes mais importantes da história. O filme é dividido em três partes, todas estreladas por Tatsuya Nakadai no papel de Kaji.

POR QUE VER THE HUMAN CONDITION HOJE?

Em tempos nos quais o autoritarismo e os flertes fascistas são dados em rede nacional com normalidade, é preciso buscar obras que ainda consigam nos chocar. A cada dia, este filme se torna mais presente e necessário. Se nos aproximamos de um Estado fascista, precisamos nos lembrar como ele funciona.

Em The Human Condition, passeamos pelos meandros mais profundos do que foi a segunda guerra sob a ótica dos japoneses: o auge do fascismo, a militarização do poder, o desrespeito pela vida, a inexistência da democracia e o preço pago pelos mais fracos.

TATSUYA NAKADAI: HUMANIDADE E SENTIMENTO

Tatsuya Nakadai | The Criterion CollectionEm The Human Condition, é o protagonista Kaji, um pacifista.

Tatsuya é o ator mais bem sucedido do Japão. Além de ser o protagonista de The Human Condition, também participou de diversos filmes do Akira Kurosawa, tendo sua estréia em Os Sete Samurais, considerado o melhor filme da história.

Protagonizou o premiado Harakiri e muitos outros, contando com mais de 120 filmes ao longo de 80 anos. Seu rosto é a ponte perfeita para que diretores transmitam sentimentos e a versatilidade faz com que ele consiga interpretar tanto samurais e arruaceiros quanto este sociólogo pacifista. Do início ao fim do filme você consegue perceber como sua expressão é afetada pelo contexto e como até os míseros detalhes da atuação constroem um ambiente coerente.

Forever Young,Tatsuya Nakadai | The Confidential Report
Em Harakiri, é o samurai que deseja se suicidar.

tatsuya nakadai gifs | WiffleGif
Em Yojimbo, o líder de uma gangue mafiosa.

 

PRIMEIRA PARTE: A ESCRAVIDÃO

Ningen no jōken (série de filmes) – Wikipédia, a enciclopédia livreNa primeira parte, “Não Há Amor Maior”, Kaji evita se casar com o amor de sua vida por medo de ser enviado à guerra. Então, quando recebe o convite de ir para uma mina de extração de minérios, pode se casar e levar a mulher consigo. Chegando lá, recebe a missão de aumentar a produtividade dos trabalhadores em 20%.

Os trabalhadores são inimigos de guerra escravizados. Chineses, coreanos, japoneses dissidentes – todos trabalham muito, comem pouco e não ganham nada. Kaji argumenta que, se forem melhor tratados, os trabalhadores produzirão mais. Então colocam ele como gerente de um bordel que, vez ou outra, contrata prostitutas para os trabalhadores.

Conforme Kaji consegue algumas melhorias na vida dos escravos, ele passa a ser cobrado para que estes parem de fugir. Mesmo tendo uma cerca elétrica e quilômetros de deserto isolando os trabalhadores, eles continuam fugindo. Nada pode ser pior do que a vida de escravo. Para defendê-los, Kaji arruma problemas tanto com os trabalhadores, quanto com os donos da mina.

Esse filme é um olhar profundo sobre a escravidão contemporânea e sua complexidade. Pode parecer uma realidade distante, mas não é tanto assim – entre 1995 e 2016, mais de cem mil escravos foram libertados no Brasil. Seja no norte, seja em São Paulo, a escravidão é uma realidade presente e que, inclusive, se intensifica.

SEGUNDA PARTE: O EXÉRCITO

The Human Condition II: Road to Eternity (1959)

Angariando o ódio de todos na mina, em “Estrada Para a Eternidade”, Kaji é enviado à guerra como castigo. Essa parte foca especialmente na academia militar e no tratamendo dados pelos militares de hierarquias mais altas aos soldados. É a clássica desumanidade do exército travestida de retidão e autoridade. A ilustração do que acontece quando se dá poder demais a pessoas ignorantes e, muitas vezes, ruins.

Soldados apanhando, morrendo e sofrendo nas mãos de generais assassinos e imorais. Kaji surge como um representante dos soldados que clama por humanidade. Consegue um aliado e centenas de inimigos. Sucumbe à maioria – soldados continuam morrendo e ele, como castigo, é enviado ao fronte mais avassalador da guerra para morrer.

TERCEIRA PARTE: A GUERRA

The Human Condition III: A Soldier's Prayer (1961) directed by ...

Em “Uma Prece do Soldado”, encontramos a guerra em toda a sua potência destrutiva. Não existem aliados – no campo de batalha, são todos contra todos. Kaji junta-se a um grupo de dissidentes, composto por uns 10 soldados, mulheres e crianças, para fugirem da guerra e voltarem pra casa.

A cada que buscam abrigo, uma nova realidade desesperada, um novo ódio generalizado. “Parece que vocês odeiam mais os soldados japoneses do que nossos inimigos”, comenta Kaji ao conhecer uma nova vila.

Nesse cenário, o único caminho possível é perecer. Morrem um a um, perdem-se as esperanças. A fome, os ataques e as traições fazem com que Kaji seja preso pelo exército Soviético e mandado pra Sibéria.

É DIFÍCIL VER? É MUITO PARADO? VALE A PENA?

the human condition film silent gif | WiffleGif

Como todo épico, é uma trajetória estarrecedora que expande nossas percepções para novos sentimentos. Esta ainda conta com um ingrediente importante – é uma história baseada em fatos reais, inspirada na autobiografia de seis livros de um ex-soldado de guerra.

Pra quem gosta de filme de guerra, tem. Pra quem gosta de romance, tem. Pra quem gosta de se chocar com as atrocidades que a ignorância pode causar – tem também.

É muito mais fácil de se ver do que parece. Episódico, seria como uma série de 9 episódios, e apesar de antigo é muito bem filmado e dinâmico. As cenas são bem pensadas para serem interessantes e fáceis de consumir. Quando você se intriga e se apega com o personagem, deseja saber logo o que acontece.

Vale, acima de tudo, pela perscrutação no radicalismo da ignorância, no extremismo da guerra. Nietzsche, serviu na guerra de 1870 para conhecer o ser humano em sua forma mais avassaladora, destrutiva e abjeta. Nós não precisamos – e nem queremos! – ir à guerra, mas podemos ter um gostinho.

Além, é claro, de reforçar: FORA, BOLSONARO!

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