Acabou a paz e o amor

Washingtonians Are Making Poignant Art About Quarantine ...

Agora o combustível para cada dia de quarentena é o ódio generalizado.

Há um mês, pensei ter atingido o pico de stress da quarentena. Meu horário e salário foram reduzidos por conta da pandemia. A equipe foi reduzida pela metade, mas as demandas continuaram as mesmas. E o meu chefe… o meu chefe é pior do que qualquer redução.

Sexta-feira ele gosta de aparecer. Nos corredores já se sente, nas entrelinhas já se ouve. “O que será que ele inventa hoje, ein?”, nos perguntamos ao chegar da tarde. Conforme anoitece sondamos, avisamos que pretendemos fechar o expediente, que temos isso ou aquilo. Nada.

Às 20h ele começa. E naquela sexta também, o homem me chega tarde da noite pedindo um relatório que ele “esqueceu de avisar que precisava”. Eu, como o bom corno que sou, fiz o relatório mesmo fora do horário. Nenhuma resposta imediata.

Ainda mais tarde ele pediu algo totalmente diferente, mais profundo, explícito, “está muito raso”.

Me recusei a fazer. Você que faça, ué. E dá-le stress. Briga franca com o chefe numa sexta-feira, batendo as 22h. E vejam só que coisa: ele foi lá e fez! Mas o relatório não foi necessário e até hoje ninguém o viu. Na segunda-feira, o “prazo” pra entrega era pra dali a uma semana. No fim, descobriu-se, era só um capricho dele.

Pois bem. Após a briga, abri um vinho. Bebi duas taças, bem menos do que em outras ocasiões.

Mas aí, meus amigos. Foi suco gástrico e dor e angústia e caos por algumas horas, até que dormi derrotado ao lado de um balde úmido. Daquele dia em diante, além de não sair de casa, eu também não estou bebendo.

 

EXPLODE CORAÇÃO

Na última terça meu corpo reagiu diferente. Quando parei de trabalhar e sentei no sofá, dia daqueles, chefe daqueles, apertei um beck e senti um comichão no peito. Que piorou. E piorou. E piorou. Quando deu umas 23h eu simplesmente não conseguia mover nada da cintura pra cima. As costas, pescoço, ombros, peito e maxilar completamente travados numa dor bizarra.

Dormi mal demais pensando que era Covid. “Se eu morrer, humilhem meu chefe, humilhem publicamente!”, eu pedia. No dia seguinte, comentei com meu irmão e com meu pai, no que eles foram assertivos: isso é stress, coisa de família, sentimos a mesma coisa. Vá ao cardiologista.

Não contei nada para a minha mãe. Curiosamente, naquela mesma noite, ela sonhou que eu tinha um ataque cardíaco e morria.

 

A CADA DIA MENOS LIKES NO INSTAGRAM

Eu diria que o maior problema da quarentena é a restrição ao número de pessoas com que você pode lidar. Se antes eu lidava com uma média de 50 pessoas por dia, agora são 10, 12 no máximo.

É a equipe no trabalho, a pessoa que mora contigo, os pais, a morena, dois amigos e duas amigas. Até porque não está fácil ficar batendo papo, e manter papos superficiais está mais difícil do que usar cuecas. É preciso que já haja aquele tom displicente da intimidade.

Quem conversa, naturalmente, precisa tolerar um certo nível de descontentamento, uma carga matinal de ódio e reclamações. O presidente isso, o fulano saiu de casa, o meu chefe…

E aí, quando você briga com uma dessas pessoas, não tem pra onde fugir: de 10 você passa a ter 9 contatos, o único assunto possível é a briga, e a sensação de aprisionamento vem com tudo.

Curioso: vivendo de quarentena, nunca quis tanto viver sozinho.

 

O BANHEIRO DOS FUNDOS

Tem sido também tempo para reflexões, e divido-as com vocês.

Gosto de chamá-la de A Teoria do Banheiro dos Fundos. Penso que você pode descobrir muito sobre uma pessoa entendendo como ela lida com este banheiro.

O banheiro dos fundos é algo que existe, mas não está sempre à mostra. Você pode passar dias sem precisar usá-lo. Na verdade, em certas ocasiões, ele denota mais responsabilidades e custos, do que eficácia propriamente.

Existem dois tipos de pessoas. As pessoas que não conseguem ignorar o banheiro dos fundos. E as pessoas que o ignoram perfeitamente. Isso diz muito sobre quem você está lidando.

As pessoas que enxergam o banheiro dos fundos com displicência, que não prezam pela sua limpeza, pela sua organização, são pessoas que naturalmente dispõem da capacidade de ignorar problemas. Às vezes é algo natural, espontâneo; noutras a pessoa busca atenuantes, ignora um problema porque estava embriagada, ou porque estava ocupado com o trabalho. Em ambos os casos elas dispõem da capacidade de ignorá-los, de deitar a cabeça no travesseiro e dormir até o dia seguinte mesmo que o banheiro esteja em chamas.

Por outro lado, existem as pessoas que não, não aguentam ver algo fora de ordem. Existe uma sensação, no âmago delas, impregnada em suas ancestralidades, dos gregos aos seus filhos, que simplesmente as impede de se considerarem plenas mediante uma incongruência.

Essas pessoas mantém o banheiro dos fundos limpo, e mais do que isso – brilhante, cheiroso, pois ao fazê-lo preenchem um requerimento fundamental de bem-estar. É preciso ter a casa limpa. Comecemos, portanto, no banheiro dos fundos, o mais fácil, o mais íntimo, aquele que ninguém tá olhando – mas você está.

Se a pessoa consegue ignorar o próprio banheiro, simplesmente por não estar à mostra, o que mais ela consegue ignorar? Você acha que o Japinha lavava o banheiro dos fundos?

TER PLANTAS DÓI

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Uma coisa que nenhum influencer te fala sobre ter plantas é que dói. Porque elas morrem. E a culpa é sua.

Você acerta no adubo. Você compra um pote, um vaso, terra nova, um regador. Estuda sobre a luz, sobre a quantidade de água, o tempo de maturação, nutrientes para o tronco. E mesmo assim – mesmo assim! – o destino de algumas, sem mais nem menos, é um saco preto na calçada.

LIMPAR A CASA É MUITO IMPORTANTE

E voltamos de novo à limpeza. Que coisa, não? Se vocês não me conhecessem, capaz de pensarem que estou tendo problemas com isso em casa. Há quem supusesse que o indivíduo que mora comigo não é lá dos mais limpos. Há quem pensasse, sim…

Mas limpar a casa é muito importante e você só percebe isso quando a casa é sua. Porque quando depende de você limpar o rodapé do armário, só aí é que você percebe que ele precisa ser limpo. E imediatamente vira uma task no seu cérebro.

No grande Trello que é a vida, um novo card foi criado. E juntou-se a outros, sempre um pouquinho mais fundos, um pouquinho mais sutis, e até então imperceptíveis: passar a esponja nos interruptores, tirar as gotas secas de sujeira da parede do banheiro, até mesmo limpar o balde que você usa para limpar as coisas.

Cumpri-las gera uma satisfação, um décimo do que é tomar uma droga, um centésimo do que é ver a mulher amada. Um milésimo do que é ganhar uma partida no LoL. E é tão fácil! A satisfação que gera ter um quarto limpo é o melhor custo-benefício desde a invenção da coca-cola.

Só que nem todo mundo percebe essas sutilezas, entende? E você há de cobrá-las? Você, que é o detentor amaldiçoado das sutilezas da higiene, um completo incapaz de ignorar o incongruente, vai cobrar uma pessoa que está vivendo perfeitamente bem no mais puro caos? Vai tirá-la de sua tranquilidade a custo de que esfregue um ladrilho?

Que direito você tem de fazê-lo? O que você há de dizer se a pessoa não se incomoda de ter tufinhos de sujeira preso aos pés? Se a pessoa não se deixa impactar por coisas que eram brancas ficando cinzas, marrom, grafite? Pontos negros de sujeira surgindo em tudo?

A didática nesses casos é importante.

Eu não tenho nenhuma.

ESSE DISCO DO BELCHIOR

Outro dia, 2 da manhã, queria um hambúrguer. Não havia opção no ifood que fosse menos de 35 reais. Vez ou outra tudo bem, mas essa onda de hambúrguer hipster é do caralho, viu? Tem hamburguer que emana, só pela foto, o sentimento de uma tatuagem tribal. Às vezes você só quer relaxar com um podrão, com toda a sujeira que tem direito.

Lembrei que na minha esquina, há 15 passos do meu prédio, tem uma caminhonete que vende um X-Tudo por 8 reais. O homem, o nordestino Batista, não conseguiu aderir à quarentena. Pois recorri ao Batista pedindo dois X-Tudo, uma latinha de coca, e ô bom, que música é essa que tá tocando aí no teu radinho?

Foi assim que conheci esse disco do Belchior.  Não que fosse ele que tocava – no radinho de Batista, era uma versão com sotaque cearense, que não encontrei em lugar nenhum.

É TEMPO DE SE IMPORTAR COM COISAS PEQUENAS

Temos poucas coisas à disposição. E é preciso se deixar distrair por coisas pequenas também. Andamos percebendo que não precisamos do resto do mundo para oscilar. Às vezes, acordamos felizes só por acordar. Da mesma forma nos notamos irritados. Sei lá, acordei virado hoje. Foda-se. Tudo bem.

2 comentários em “Acabou a paz e o amor”

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