Que que ta rolamd

Os dias não têm sido bons. Acordo com uma ansiedade tão esquisita que de meia em meia hora acho que preciso fazer cocô. Mas é só uma ansiedade e um pum.

Não quero ser permissivo com o termo ansiedade, até porque condeno quem usa assim à toa. Não chega a ser nada patológico, é aquela ansiedade natural que antecede grandes conquistas: quem não sente, já está morto.


Eu me mudo no sábado pra um bate-e-volta na casa dos meus pais enquanto não fecho meu novo apartamento. Tenho aproveitado a semana para visitar apartamentos o máximo que posso, pois depois de sábado será complicado me locomover para o bairro pretendido. Pode não parecer, mas ainda estamos numa pandemia.

Falando nisso, estão maquiando essas estatísticas, né? Tem coisa errada aí.

Pois bem. Na segunda eu agendei uma visita a um apartamento que, nas fotos, era bonitinho. Tinha uma cozinha feia e um banheiro esquisito, mas pelo preço…

Chegando lá, mas que vergonha. Era um prédio comercial. Os três primeiros andares eram de lojas e escritórios, e a partir do quarto você tinha o maravilhoso deleite de 10 andares com 23 apartamentos cada.

A recepção, coberta por ladrilhos azul-bebê que me lembravam um cenário do Chaves, tinha uma floricultura, uma pedicure, um eletricista e uma parede de 2 metros de altura por uns 10 de largura tomada por caixas de correio. Eu chequei – quem morasse no 14º andar precisava usar uma escadinha. Parecia Hogwarts, só que sem a magia e com ladrilhos da década de 70.

Escolhi um dos três enormes elevadores de ferro para chamar. Ele chegou e subi com mais duas pessoas. Ok, quinto andar. Era assim:

O mesmo corredor continuava para trás também.

Um hospício. Isso só pode ser um hospício. Vinte e oito pessoas morando em apartamentos minúsculos e grudados. Pela bagatela de R$1700 mensais!

Bati na porta do 528, o apartamento pretendido.

Um homem estava lá me esperando. Abriu a porta e disse “fique à vontade”.

Aí tem aquele teatro. Cada um define uns protocolos básicos para conferir um apartamento. Meu pai acende as luzes, testa as torneiras, abre os armários. Uma vez vi um menino que batia em todas as madeiras para ver se caía algo. Há quem procure as correntes de ar, infiltrações.

Eu? Eu fui olhar a janela.

Horrível. Apenas telhas sujas. Lembrei de um período da infância em que essa era a vista do meu quarto. Eu raramente olhava pra ela. Mas desenvolvi nessas rápidas olhadelas o hábito de procurar por itens perdidos. Toda telha tem um chinelo velho, cigarros, um saco plástico, uma caneta bic e uma bola furada. Na telha de minha infância, um dia, sem mais nem menos, após meses, a bola sumiu. Não me perdoo por ter perdido o momento do resgate.

Junto com a telha, todo o mais era ruim também. Obviamente aquilo fora projetado para ser uma sala comercial. Uma minúscula recepção, com um minúsculo consultório, um banheiro em que não se pode sequer abrir os braços, e uma cozinha aberta para um vão interno do prédio que dava, veja você – na lixeira.

O homem me acompanhava com os olhos. Abri a torneira. Lavei as mãos. “Boa a pressão, né?”, eu disse. “Eu só tô aqui pra te mostrar mesmo, os donos me contrataram”, respondeu com desinteresse.

Saí do prédio com a certeza de que nunca mais pisaria nele. Depois da visita, a dona me mandou um whatsapp: E aí? Gostou?

“Olha, pra ser sincero, não gostei muito não. Vou dar uma olhada em outros.”

O tempo passou e me perguntei se não teria sido grosseiro. Ela não me respondeu.

Hoje eu encontrei outro anúncio e marquei uma visita. Liguei para o dono e fui imediatamente visitar. Era na mesma rua do anterior. Andando pela rua, ia olhando os prédios, todos lindos, arborizados, me imaginando morando ali… Pelo número, deve ser perto… não, pera… pera… ah não…

Era no mesmo prédio! Ah, para. Talvez esse seja em um andar melhor, mais alto… poderia ser melhor… enquanto esperava, vi uma mulher falar com o porteiro: vocês fazem mudança sábado? Ah, sim, sim. É, vou ter que me mudar… infelizmente, né? A gente gosta daqui, mas tem o contrato…

Aquilo me deu alguma esperança. Talvez nos outros andares houvesse vida… No whatsapp, o dono me disse: “minha mulher que vai te mostrar, ela já está chegando”.

E ela chega. Droga.

Eu estava visitando o mesmo apartamento duas vezes.


Saí de lá e, para não perder a viagem, pensei em passar na papelaria e comprar durex pra mudança. Lembrei de uma única papelaria, lá no fundo do Largo do Machado, quase Laranjeiras, e pensei: lá com certeza tem.

Andei, andei, andei. Um sol danado. Um vírus assassino à espreita. Cheguei na rua, entrei na galeria, e quando me aproximei do local da papelaria… Não era lá.

Meu deus, aonde fica a papelaria?

Não lembro. Não faço ideia. Teria sido uma memória fake?

O que está acontecendo com meu cérebro, meu deus?

Achei durex numa loja de ferramentas. Aproveitei e comprei uma chave de fenda.

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