Tu resti bella anche se mi fai male oh oh oh oh

Eu vi cinco minutos do primeiro episódio de Sopranos e dei pause. Achei ótimo. Mas notei que eu precisava pensar.

Só pensar, olhar pro chão, em silêncio. Lembrar do que eu falei hoje. Avaliar, ver aonde vacilei. Entraram duas meninas novas no trabalho hoje, e já tinham entrado duas outras no início do mês. Quatro mulheres novas – uma lá de uns 45 e três com seus 30, 29.

Daí que como a de 45, a MM., e a de 30, B., entraram antes, já me sinto mais íntimo. A de 45 adora puxar um papo, e eu, ainda que com pouca disponibilidade pela carga de reuniões, adoro conversar também.

E aí eram umas 17h30, o chefe e a gerente já haviam ido embora, metade da equipe estava de home office, aí o papo corre solto né.

Eu tava mostrando um relatório pra menina nova, V., e ela mete que adora um relatório de métricas. Pensei: Pera aí. Tu ADORA um relatório? Disse: Tu deve ser de virgem.

Ela riu e disse que era mesmo. Óbvio. Falei que curto, acho essencial até, meus amigos tem tudo algo em virgem. “Vocês buscam encontrar método e organização para as coisas, admiro isso, também sou assim com algumas coisas.”

Pensei, mas não disse – minha lua é em virgem, lua é sentimento, né? Gosto de organizar o que sinto, pô-los em caixinhas, as palavras, e pra isso escrevo, repito, repito, ensaio falando pras pessoas, reflito se era aquilo mesmo, se a caixinha está bem embrulhada.

Voltando às coisas que foram ditas, ela disse que era aquilo mesmo, ainda que conseguisse ser bem bagunçada com outras coisas. O ascendente é sagitário e a lua em escorpião, pensei que era engraçado os nossos serem invertidos, disse: wow, lua em escorpião, intenso, ein?

Continuei: Irado. Acho irado. Eu já fui muito escorpiano quando era mais jovem, era muito intenso, saca? Mas fui envelhecendo e ficando mais tranquilo. Bem mais tranquilo. Agora o escorpião só aparece de vez em quando, assim, sem querer, num vacilo, eu noto que disse alguma coisa com um tomzinho beeem escorpião, sem querer.

Ela disse que era isso mesmo, a gente cresce e fica o ascendente, era isso. Falou um pouco que sagitário é meio desapegado, meio solto, não se prende demais às coisas.

**

Sei lá de onde veio que eu comentei que meus pais vão se mudar pra Canção Nova. Quem sabe o que é, acha curiosíssimo. Quem não sabe, não liga. Uma cidade que é uma igreja – e meus pais morando no Prédio da Fé (sério). Elas sabiam.

Daí perguntaram se eu era religioso, falei que não, que era agnóstico. Começamos a falar de religião.

A MM. dizendo que era católica mas acreditava em muito mais, achava lindo os atos, os rituais, sabia de muitas religiões, falou de umas coisas que eu não sabia direito, contou que fez muito turismo para locais religiosos – começaram a falar de Notre Dame e eu, porra, nunca saí do eixo Rio-São Paulo, Notre-Dame pra mim é Candelária.

Aí MM. perguntou: você disse agnóstico, né? Expliquei, acho muitas coisas possíveis, posso entender o sentimento, acho possível, provável até, que existam coisas além do que vemos, mas que não me alinhava a nenhuma doutrina. Até aí tudo bem. Mas meti um “Já li muito Nietzsche” pra terminar. Pra quê? Isso diz muito pra mim, que li muito Nietzsche e adoro. Pros outros também diz muito, diz assim: Caralho, meteu essa?!

Tem certas coisas que são bem importantes e definitivas pra mim, mas pros outros parece apenas um jovem querendo aparecer.
Nietzsche é a maior delas.

**

Estávamos indo embora quando a outra menina nova, a G., que tem uns olhos verdes penetrantes, os quais ela usa muito bem, foi ao ponto de ônibus junto comigo. Nessa hora eram já 18h30, e então eu me lembrei. Do sentimento. O sentimento de ser 18h30 e estar voltando pra casa. Simplesmente o momento em que a gente passa do ponto.

Metaforicamente falando, eu quis dizer. Historicamente, eu considero a hora de voltar do trabalho (de 18h30 às 19h30) um momento muito perigoso. Mas, com a pandemia, eu não experimentava essa sensação há muito tempo.

Nessa hora, eu estou sempre um pouco desatento, um transe meio amargo e desleixado que o transporte público me impõe. É como se por estarmos no trânsito, nossa mente também estivesse em trânsito, um meio-do-caminho desinteressante em que falo umas coisas meio disparatadas, que mais tarde me arrependo, não por terem sido erradas, mas apenas por terem sido rasas como uma poça, ou 14% desagradável.

Às 18h30 a menina comentou que gosta de home office na sexta pra não precisar pegar a ponte. Eu comentei que gosto na quinta, e aí distraidamente vomitei 25 informações pessoais sem absolutamente nenhuma necessidade – eu gosto de fazer na quinta porque eu comecei a fazer terapia quer dizer eu já tinha feito antes mas agora comecei de novo por conta de um término e daí a terapia é de 8h às 9h e eu posso fazer com calma.

**

Mas o pior ainda estava por vir. Sentado no ônibus cheio, o fone de ouvido no máximo (e não sendo suficiente), Sul Finale do Último vibrava no fundo do meu cérebro, sentindo verdadeiramente cada palavra proferida por aquela boca italiana, tu resti bella anche se mi fai male, ohhh oh oh oh oh, tu resti bella anche se mi fai male, piscando os olhos com satisfação e deleite enquanto fazia caretas por trás da máscara cirúrgica.

No WhatsApp, mais uma mensagem da menina que tá me dando ideia. Uma distração para um distraído: ela surgiu do nada e proativamente está me dando bola, bonita e divertida, difícil até de entender.

Mas eu estava em trânsito. E quando se está em trânsito, o celular só deve servir como um tocador de música, no máximo um podcast – o celular não pode nunca, jamais, deixar vazar por suas micro-ondas magnéticas uma mensagem criptografada de whatsapp em direção ao receptor de micropartículas na tela do dispositivo iOS de outra pessoa.

Eu estava em trânsito. Mas, buscando uma distração, falei pra ela:

“Mas e tu, o que você faz numa segunda à noite? Livros? Filmes? Séries? O que te pega?”

Puta merda, tudo errado. A abordagem mais vulgar, a demonstração de interesse mais vazia e preguiçosa que um homem pode ter. É tipo assim – quero conversar, fala algo aí de tu.

O começo do fim.

Eu nem devia tar nessa, na real. Ainda tô com a plaquinha de Terminado pregada entre os mamilos.

Eu já me sentei no sofá, mas ainda estou em trânsito. E isso diz tudo. Botei o celular a duas paredes de distância pra ver se consigo descer.

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