half empty, half too much

Hoje tomei uma comida no trabalho. Foi um desfile, uma elegância. Me ligaram. Minhas duas superioras raivosas na ligação. Uma outra área me pedira um negócio e, na inocência, eu sai entregando, sem conceber a microfísica do poder que circundava aquela situação. E foi um desfile. Com uma clareza e uma firmeza levemente raivosa elas reclamaram com muita veemência pra cima de mim. Um esporro bem dado. Ainda que eu tenha achado um pouco acima do tom, como se eu houvesse, num ato de rebeldia e desrespeito, atravessado os procedimentos. Quando fora só uma inocente solicitude. Desatenta e inoportuna. Ja cunhei uma frase que encerra qualquer discussão sobre o mundo corporativo – a proatividade é o câncer de toda iniciativa.

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Obviamente tem algo muito errado com a forma como eu me relaciono com mulheres. Romanticamente, i mean. E por romântico digo – com intenções safadas. É como se eu precisasse sempre estar falando com alguém, sempre mantendo um pequeno vício em receber notificações daquela pessoa, ao mesmo tempo em que tenho alguém para compartilhar meu dia e meus pensamentos. Isso só rola, é claro, com mulheres.

Se eu não tenho alguém para compartilhar meu dia, eu não me basto, acabo me sentindo mal. Mas também convenhamos que não é dever de nenhuma menina exercer esse papel na minha vida. E quando eu chego com meu mood pré settado de muita sinceridade, muita interação e um evidente narcisismo, acabo afastando quem quer que seja.

E tem esse negócio de vontade de ficar falando o tempo todo. O tempo todo pensando que queria estar falando com ela – queria estar aguardando um novo pensamento dela. E a censura dessa vontade, que acaba gerando complexos. Ja falei muito, hoje não vou falar. Aí é um dia inteiro evitando. Aí numa distração, as vezes antes de dormir, “ah 22h todo mundo quer bater um papo”, mandei mensagem. Aí a resposta é evasiva – sei lá, as vezes a pessoa não tá afim. Ja me sinto mal. Fico esquisito. Amanhã não falo com ela. Mas acordo, e sempre acordo um pouco mais emocionado, e acabo puxando um assunto – é um novo dia para bater papo! Mas se ela demora pra responder, já tento me fazer de difícil de novo até um outro momento de fraqueza.

É isso. Outro dia estava falando de vícios com uma. E eu disse: tu acha que eu não tô viciado em checar se tem mensagem sua? Óbvio que estou. Mas o cruel é que isso não tem nada a ver com ela.

Quando me relaciono pelo celular, eu me relaciono comigo. É um vício e um narcisismo. Uma egotrip. Eu não me basto e então me jogo pra cima de alguma menina que esteja passando.

E quando ela não me responde, também não tem muito a ver comigo. Sempre me perguntei porque as meninas enjoavam de mim se tenho uma conversa boa e sou gatinho. Hoje, mais velho, imagino que algumas percebam que as faço de muleta para meu narcisismo. Ou, em muitos casos, elas também estivessem se relacionando apenas consigo mesmas, e temam que eu esteja ficando exageradamente apegado. Para quem é um pouco mais frio, um sinal de alerta se acende ao perceber que eu nunca espero receber uma mensagem: eu sempre envio primeiro.

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Segundas são dias muito perigosos. Muito. Eu sempre digo isso. É preciso estar atento. Se tem algo que eu sempre digo, é isso.

A primeira desatenção foi ter respondido o e-mail. A segunda foi quando uma das mulheres veio falar comigo. Gui, não faça isso, não responda, etc. E então minha segunda desatenção: “que burocracia! kkk achei que era só enviar o que ela pediu!”, eu disse.

Hmm. Ele não só atravessou a microfísica da nossa hierarquia, como desrespeitou a burocracia, ela deve ter pensado. Não assim, não em público. Que desatenção.

Eu merecia a comida.

Trabalhar em empresa grande é muito menos sobre o que você é capaz ou não de fazer; é plenamente sobre como você lida com o que não está dito.

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As vezes eu acho que pensar muito em meninas me deixa desatento pra todo o resto. Mas quando não tenho uma menina pra pensar, todo o resto parece que some.

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Eu estava falando com uma outra também. Veja você as coisas que a gente faz. Pra evitar ter muita vontade de falar com uma menina, eu sempre procuro ter uma segunda menina por perto também. As vezes dá certo. Mas as vezes calha de eu me jogar ainda mais desatento pra ela. Não é incomum as duas darem no pé meio que juntas e eu me sentir meio bosta.

Mas estava falando com essa segunda e combinamos de sair domingo. Eu estava meio cansado pra falar a verdade. Já havia saído com uma, já havia saído com amigos, tantas coisas. Eu estava vendo uma maneira agradável de explicar pra ela que estava com preguiça. Mas antes de eu dizer, ela mandou um áudio. Rouca. Estava sem voz. Doente, precisava descansar. E pediu pra remarcarmos. Perfeito!! Topei 👍

Mas aí ela postou mídia saindo com outra pessoa kkkk. E tá tudo bem também, foda-se, mas que engraçado a pessoa pá e depois pum e ainda postar e tal, essa necessidade que as pessoas têm de fazer mídia.

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Já tem alguns dias que eu só interajo com mulheres. No trabalho, no celular e na casa de amigas. 9 das 11 pessoas da minha equipe são mulheres. Um é o chefão, não falo com ele. O outro é um espanhol gente finíssima com quem converso bastante. É o único homem com quem eu falei nos últimos 10, 15 dias.

Sempre me senti mais acolhido e espontâneo com mulheres. Mas as vezes… é como se eu estivesse sempre me submetendo.

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Eu ia deixar um bigode. Deixei no domingo. Ia bancar. Mas depois de um dia desses, já foi raspado. Um bigode é sinal de confiança e eu sou, na essência da palavra, um bosta.

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Agora que eu escrevo pra levar pra terapia, escrevo demais e com uma sinceridade catastrófica.

Escrever sem postar não tem 1/3 da graça. Escrever é um frenesi. E postar é a continuação. É reler 500x por insegurança. Me achar um gênio e me achar um arrogante. Reler e reler, até aquilo se tornar verdade. Em público.

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