Entre negronis e limerancias

Obviamente cheguei no rolê cedo. Não sei mais ser solteiro. Era um sábado frio e tinha marcado 19h com um amigo e uma amiga na Cinelândia. Às 19h eu já estava lá e eles disseram que ainda iam demorar. Fui tomado por uma tristeza bem intensa. Andei um tempo por ali, entre os mendigos e a pequena multidão que entrava no Theatro Municipal pra assistir ao Lago dos Cisnes. Eu queria ver, mas não consegui ingresso. Quando começou o espetáculo, na Cinelândia só restaram os mendigos e o frio. E eu.

Entrei no amarelinho, pedi um chopp. Lembrei do tempo em que a solidão não me parecia tão enclausurante. Eu gostava, até. Acho que é porque morava com meus pais, estudava e trabalhava. A solidão nesses casos é um luxo. Numa noite fria, não. Naquela, especificamente, eu estava bem triste.

Notei um quadro escrito Negroni. Pedi um. Gin, vermute, campari, uma fatia de laranja e uma pedra grande de gelo. Isso não me diz muito – detesto gin, não sei o que é campari nem vermute. Laranja eu sei. Mas Negroni tem um branding que me pega, é um ruim gostoso.

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half empty, half too much

Hoje tomei uma comida no trabalho. Foi um desfile, uma elegância. Me ligaram. Minhas duas superioras raivosas na ligação. Uma outra área me pedira um negócio e, na inocência, eu sai entregando, sem conceber a microfísica do poder que circundava aquela situação. E foi um desfile. Com uma clareza e uma firmeza levemente raivosa elas reclamaram com muita veemência pra cima de mim. Um esporro bem dado. Ainda que eu tenha achado um pouco acima do tom, como se eu houvesse, num ato de rebeldia e desrespeito, atravessado os procedimentos. Quando fora só uma inocente solicitude. Desatenta e inoportuna. Ja cunhei uma frase que encerra qualquer discussão sobre o mundo corporativo – a proatividade é o câncer de toda iniciativa.

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ya no sonrío si alguien pronuncia tu nombre

Tem um filme com o Gregório Duvivier em que ele fala de um vizinho que ficou ouvindo “devolva-me” no repeat a noite toda. It probably was me for no reason.

Ele sentiu pena do cara, disse que queria ir lá abraçá-lo. É a reação natural. Mas agora que eu tenho uma Alexa, ouvir minhas músicas tristes preenchendo a sala é o momento mais confortável dos meus dias. É quando eu consigo sentir alguma coisa – mesmo. Chamo de uma melancolia confortável. Mas é mais, é um abraço, ao mesmo tempo que é lindo, é lindo demais, eu repetiria isso mil vezes – é lindo – é a obra de arte que mexe comigo mais profundamente. O resto do tempo é apenas robozinho, um passo atrás do outro.

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now i think i like it like the pain became my jesus

estar solteiro te permite ter muito mais tempo para sentir as coisas, principalmente pq você tem muito mais tempo sozinho, e muito mais coisa pra sentir.

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blocos de carnaval são bolhas. junta-se uma galera conhecida de vista, uma galera q estudou contigo 10 anos atrás, uma que trabalhou num estágio, uns que se conhece do twitter, e num universo de umas 600 pessoas a gnt conhece umas 50, e as encontra por aí como pequenos cristais prontos a te darem um abraço saudoso ou um beijo satisfatório.

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eu tenho ficado como há muitos anos nao ficava, é meio intenso, é meio doente, eu fico exageradamente focado naquilo, é como se aquilo fosse uma estrela, que eu persigo sem olhar ao redor, levando toda a vida como uma cavalgada despretensiosa, mas profundamente focado em alcançá-la, que é inalcançável, e ainda bem – imagina, se eu alcanço uma, como ficariam as outras? Mas a estrela vai sumindo, num piscar de olhos só me resta a lembrança do brilho que foi um dia. Se parar pra pensar, ela segue o trajeto dela, independe de nós aqui, seu brilho instigante e sua beleza inalcançável, enquanto nós criamos ilusões sobre suas histórias que dizem muito mais respeito a nós mesmos; aos poucos nos damos conta de que elas já morreram, e fica cada vez mais claro que era tudo coisa da nossa cabeça.

Tu resti bella anche se mi fai male oh oh oh oh

Eu vi cinco minutos do primeiro episódio de Sopranos e dei pause. Achei ótimo. Mas notei que eu precisava pensar.

Só pensar, olhar pro chão, em silêncio. Lembrar do que eu falei hoje. Avaliar, ver aonde vacilei. Entraram duas meninas novas no trabalho hoje, e já tinham entrado duas outras no início do mês. Quatro mulheres novas – uma lá de uns 45 e três com seus 30, 29.

Daí que como a de 45, a MM., e a de 30, B., entraram antes, já me sinto mais íntimo. A de 45 adora puxar um papo, e eu, ainda que com pouca disponibilidade pela carga de reuniões, adoro conversar também.

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“Apostando Alto” é o dorama mais incrível que já vi

Crítica: Apostando Alto - o novo dorama Netflix (2020)

A primeira vez que fui contratado como pleno foi para o marketing de uma empresa de inovação. O ambiente dessas empresas é incrível: para qualquer lado que eu olhasse, eu via pessoas jovens, inteligentes, sonhadoras, buscando formas eficazes de mudar o mundo.

Talvez eu tenha me apaixonado por “Apostando Alto” por sentir saudade dessa época. Mas também pode ser por outros motivos: o dorama é incrível, envolvente, magistral, extremamente bem feito, bonito, com personagens excelentes e com uma trilha sonora excelente.

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Resenha: A Morte de Ivan Ilitch, 1886 (Lev Tolstói)

Resenha | A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói – Valeu, Gutenberg!

Um funcionário público, ascendente na carreira jurídica, um dia sente uma dor do lado esquerdo na barriga.

Após uma breve passada por sua história, acompanhamos os últimos meses desse funcionário, à medida que essa dor toma o protagonismo de sua vida, tornando a existência uma agonia para si e para todos ao redor.

Este livro, que tem por volta de 70 páginas, é um convite para refletirmos não sobre a morte de Ivan, mas sobre a nossa própria morte e a vida que escolhemos.

Sinceramente, por ser tão curto, o livro não me trouxe nenhuma grande reflexão, e não acho que se justifique qualquer hype nele. Se por um lado a leitura é rápida, sinto que também a esquecerei rapidamente.

Resenha: Do que eu falo quando falo de corrida (2010)

Devolva meu livro, por favor: Do que eu falo quando eu falo de corrida  (Haruki Murakami)

Eu comecei a correr em 2021 para perder os quilinhos da quarentena e acabei encontrando na corrida um hobbie bem envolvente. Só que correr não necessariamente é algo divertido ou prazeroso. Em geral, é algo cansativo que vai contra a vontade primordial do corpo de preservação. É preciso estar constantemente se motivando para manter o hábito, pois 100% do tempo há uma voz no fundo da cabeça repetindo um milhão de desculpas para não correr.

É preciso estar a todo instante focado no único motivo que faz a corrida valer a pena: o banho de serotonina após o fim do exercício, com a sensação de dever cumprido.

Manter-se motivado é um desafio e por isso procuro obras sobre o assunto que me motivem. Foi o caso dessa, as anotações deste grande autor japonês sobre seu hábito de correr.

Para o Murakami, a corrida de longa distância é um esporte de força mental. Com condicionamento e os tênis adequados, correr é meramente exercer o domínio do corpo para manter as pernas correndo. Assim como escrever ficção. Correndo 10km todos os dias, a meta dele é fazer 300km por mês. Isso treina sua força mental para escrever mais e melhor.

No livro há relatos da primeira maratona dele (42km), dos treinos, das motivações, alguns trechos biográficos, algumas corridas que ele fez em locais inusitados (em Atenas, por exemplo). Há também o relato pessoal de uma ultramaratona do Japão: 100km em 10 horas. O que passa na cabeça de alguém que corre 100km em um dia?

Resenha: Almas Mortas, 1842 (Nikolái Gogol)

RESENHA #511] ALMAS MORTAS - NIKOLAI GOGOL

No boi há muito que se aproveite, mas dele ninguém vai tirar o leite.

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Tchitchicov queria comprar almas mortas. Thats the point. Você, nem ninguém, sabe o motivo. E é isso que faz o livro acontecer.

Como uma câmera que vai passando de casa em casa, do mais baixo ao mais alto clero da Rússia do século XIX, Tchitchicov se adapta aos ciclos sociais, se apresenta como um agradável empreendedor, e tenta comprar almas mortas. Almas, no caso, são os servos, que são tratados como propriedade dos donos das terras.

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Resenha: A Morte do Pai, 2009 (Karl Ove Knausgård)

A morte do pai – Karl Ove Knausgård – Literateca

Eu diria que 70% desse livro é bom. O autor entra em um freestyle autobiográfico passeando por suas lembranças da juventude e adolescência. É como ler um blog ou o diário de um adolescente super bem escrito. São aquelas leituras fáceis e viciantes em que se entra num transe e 50 páginas passam num piscar de olhos.

Os outros 30% são elocubrações filosóficas que o autor faz aleatoriamente e você se pega pensando: Karl Ove, não é pra tanto. Voltemos aos fatos…

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