A inerente beleza da minha vida

“Pangloss ensinava metafísico–teólogo–cosmolonigologia. Provava admiravelmente que não há efeito sem causa e que, neste que é o melhor possível dos mundos, o castelo do senhor barão era o mais belo possível dos castelos e a senhora a melhor das baronesas possíveis.

Cândido, em pânico, desvairado, todo ensanguentado e palpitante, dizia consigo: “Se este é o melhor dos mundos possíveis, como não serão os outros!””

Às vezes eu me pergunto se tudo não passa de um preciosismo, de uma escolha meticulosa de narrativas para ornar a vida.

Eu me pergunto se o fato de escrever a minha vida há tantos anos – já são 11 agora – não me transforma num otimista do passado, um nostálgico imediato. Se no final das contas eu não fico enfeitando os acontecimentos com lantejoulas e brilhantina, como se a vida só dependesse da interpretação que eu desse para ser melhor.

Por que, ou é isso, ou eu tenho uma sorte descomunal, uma sintonia singular com o universo que me faz caminhar apenas pelos mais bonitos de todos os caminhos possíveis.

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O que é bom a vida dá

Nós precisamos saber admitir quando a vida nos sorri, não é mesmo?

Ainda que, como diz sabiamente aquela letra da Tópaz, “O que é bom a vida dá / pra depois poder roubar / e morrer de rir ao ver / que você não tem mais”, devemos entender seus gracejos mas sem jamais apegar-nos a eles.

Foi o que aconteceu naquele domingo. Eu havia terminado, em definitivo, uma relação de idas e vindas que se estendia há meses. Já estava tão calejado das feridas que o término suscitou, que sequer conseguia sentir a melancolia desta vez. Esperava, esperava, imaginava “hm, hoje é domingo, talvez lá pela terça eu sinta falta dela, na quarta mande uma mensagem inconsequente, que desenrole para mais um encontro culpado ao anoitecer”, e nesses pensamentos ia divagando meu domingo.

Até que aconteceu algo diferente.

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Trilogia do Ciúme, de Philippe Garrel

A Trilogia do Ciúme de Philippe Garrel é tudo o que eu poderia querer assistir em um fim de semana. “O Ciúme” (2013), “À Sombra de Duas Mulheres” (2016) e “L’amant d’un Jour” (2017) são filmes curtos, pertinentes e agradáveis, abordando diferentes formas de amor e como o ciúme pode destruí-las.

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Existe uma grande discussão em torno do fazer artístico que circunda a questão de se fazer arte pensando no público ou fazer arte pensando na arte. Existem obras que se fecham em si e não precisam agradar a ninguém. Geralmente as grandes precursoras, as que causam as maiores quebras de paradigma, são desse tipo.

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Foi um bom dia

Luciano andava pela rua com o ar de que alguma coisa tinha acontecido e só ele não tinha percebido ainda. Como numa final de campeonato de futebol, ou no dia seguinte ao do fim da novela. Olhava para os lados e via as pessoas andando apressadas, desconjuntadas, até dando breves corridinhas. Não eram muitas: por algum motivo, as ruas estavam assustadoramente vazias, apenas poucas pessoas muito apressadas, correndo de um lado para o outro.

Olhou de soslaio para o lado e viu um carro freando dramaticamente numa esquina. Uma mulher saía correndo dele, e as pessoas ao redor se aproveitaram da descarga de adrenalina que aquela cena havia injetado na situação pra começar a correr também – cada uma seguindo seu caminho.

Via alguns carros, poucos correndo rapidamente, mas a maioria estacionado, curiosamente com pessoas dentro deles. Alguns, nas ruas menos iluminadas, podia ver que tremiam, como se fizessem sexo. Das janelas dos que estavam abertos, ouvia sorrisos e um pouco da canção que saía dos rádios.

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Jules e Jim (1962)

Certa vez li, ou ouvi – ou talvez até tenha pensado sozinho – que o cerne da Nouvelle Vague era uma mistura de conversas profundas, buscando novas interpretações de aspectos da vida, relacionamentos em formatos inusitados e o descaso blasé e cheio de cigarros dos franceses. Desde essa frase, entendi toda a minha paixão, ainda que um pouco preguiçosa, pelo movimento.

Pelo meu entendimento, os maiores nomes da Nouvelle Vague são Godard e Truffaut. Algo como o Cristiano Ronaldo e o Messi do cinema, ambos foram gênios com formas distintas de jogar. Se o Godard se destaca pelas montagens de seus filmes, pelas cenas e diálogos que dão postagens estonteantes no tumblr e pelos papéis magistrais de Ana Karina e Brigitte Bardot, o Truffaut destila sua genialidade em roteiros psicológicos e poéticos.

Jules et Jim (1962) ilustra perfeitamente isso. Truffaut, com apenas uma ou outra cena icônica, cria diálogos que são uma fonte inesgotável de poesia. Jules e Jim são grandes amigos cuja relação é atravessada por Catherine, uma mulher de pensamento e atitude fortes. Jules se apaixona perdidamente e casa-se com ela, chegando a ter uma filha adorável.

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A Negação da Morte

“Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.”

(Ernest Becker – A Negação da Morte)