Resenha: Laços, 2014 (Domenico Starnone)

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Tem imagens que são mais óbvias, iniciantes, que todo jovem ao tentar escrever poemas vai recorrer. É por isso que é tão comum encontrá-las por aí. A dualidade da palavra “nós”, que pode ser a primeira pessoa do plural ou um laço bem amarrado, é uma delas.

Tem aquela música da Fresno, “são muitos enredos enrolados, embriagados, como nós”. E tanto a música quanto o livro de Starnone falam de relacionamentos que de tanto se enlaçarem, apertam-se, sufocam-se, e demandam um pouco de liberdade, um corte abrupto, que deixa marcas.

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Resenha: O Sentido de um Fim, 2011 (Julian Barnes)

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Rápido, surpreendente e intenso.

Rápido – É um livro sobre o tempo, sobre envelhecimento, remorsos e esquecimentos. Sintomas de uma vida que vai se acumulando. Na primeira parte, o autor pincela uma infância ligeira, apenas com os pontos relevantes. E depois, um salto, aos 50 e tantos anos muita coisa é retomada após receber uma herança inesperada.

Surpreendente – A grande brisa desse livro é sobre como editamos nossas memórias à mercê de nossos sentimentos, nossas vontades e perspectivas. Sobre como criamos narrativas pessoais, que tomamos como verdade, e que muitas vezes nos afastam de uma concepção verossímil da realidade.

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Resenha: Intérprete de Males, 1999 (Jhumpa Lahiri)

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Uma série de contos sobre uma Índia cada vez mais globalizada.

O conto que dá o nome ao livro é, de longe, o mais legal: um guia turístico está passeando com uma família americana e conta que trabalha de “intérprete” para o médico estrangeiro que atende no seu bairro, traduzindo do bengali para o inglês as dores dos habitantes. Esse serviço desperta o interesse da mãe, que imagina nele a solução para um mal que ela nunca conseguiu por em palavras.

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Resenha: O Vermelho e o Negro, 1830 (Stendhal)

Pin em O Vermelho e o Negro.

O negro da batina, o vermelho do exército francês. Essas cores traduzem os ambientes que vão marcar a história de Julien Sorel, o ambicioso filho de carpinteiro que almeja ascender socialmente.

Julien, por ser extraordinariamente bonito, deixa mulheres apaixonadas por onde passa – e é a partir dessas paixões que a história evolui, o que fez Stendhal comentar que a obra é “a primeira vez que um livro teve a ousadia de tratar dos sentimentos franceses” e também “o único livro que tem duas heroínas, a Senhora de Rênal e Mathilde”.

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Resenha: Diário de Queda, 2011 (Michael Laub)

Diário da queda - Resenhas - Livros - Bons Livros Para Ler

A história de um trauma e suas implicações.

Essa resenha poderia se resumir a isso. O curto livro de Michel Laub, escritor gaúcho de 48 anos, trata de todas as reverberações que um trauma pode causar em uma vida.

O livro é apresentado em forma de diário, marcado por fluxos de consciência e divididos em nove capítulos cujos títulos são: “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre o meu pai”, “Algumas coisas que sei sobre mim”.

Neles, as lembranças de sua família, judeus fugidos de Auschwitz, se entrelaçavam com suas próprias lembranças, reavivando o trauma cujas consequências se projetam em diversos fatores de sua vida nas décadas seguintes.

É pra ler em uma sentada e conhecer uma parte do Brasil que não estamos tão habituados.

Resenha: O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984 (José Saramago)

O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago – contraCenas

Eu nunca tinha lido Saramago, até o último natal, quando minha mãe me presenteou com O Ano da Morte de Ricardo Reis, de acordo com ela, “porque nosso sobrenome é Reis”.

Li ele inteiro em 2 dias. Nele mostra-se os últimos dias deste poeta, que na verdade, não existiu. Ricardo Reis foi um pseudônimo do Fernando Pessoa. Quando Pessoa morreu, não houve um fim para a história de Ricardo. É nesse gap que Saramago atua.

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Resenha: A Tirania do Amor, 2018 (Cristovão Tezza)

A TIRANIA DO AMOR – Cristovão Tezza – ACRÓPOLE REVISITADA

Como pensa um Faria Limer?

Eu resumiria que a proposta desse livro é colocar o leitor nesse lugar, conhecer esse ser que vive nas sombras do rendimento passivo, esse ser que não se preocupa com os boletos no fim do mês mas mesmo assim tem um monte de preocupações absolutamente banais, gente como a gente.

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Resenha: Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910 (Rainer Maria Rilke)

floribundo: Rainer Maria Rilke

“O fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la. Amar também é bom: pois o amor é difícil.”

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“Cartas a um jovem poeta”, do Rilke, é o livro que mais mexeu comigo na vida. Já presenteei 3 pessoas diferentes com ele, anexando marca-páginas em minhas cartas favoritas. Em 1903, um rapaz de 17 anos troca cartas com seu poeta favorito, que lhe dá diversas dicas de como encarar a vida. O Rilke foi um dos poetas mais influentes da Europa no século XX, e sua correspondência foi publicada nesse livreto de 60 páginas.

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Resenha: Torto Arado, 2019 (Itamar Vieira Junior)

Com 'Torto Arado', autor une prestígio literário e sucesso comercial | VEJA

Falam muito bem desse livro, ganhou tudo que era prêmio nos últimos anos, a capa é chamativa e todo mundo gosta de tirar foto com ela.

Livro bom, curtinho, direto ao ponto, duas irmãs, Bibiana e Belonísia, que vivem num contexto análogo à escravidão numa fazenda na Chapada da Diamantina. Uma delas, logo cedo, fica muda, e o livro procura dar voz às duas, mostrando suas vidas e suas perspectivas. Desde a inocência da infância, às aspirações da adolescência, às dores do amadurecimento, às instigações políticas, à inconformidade (ou conformidade) com suas situações.

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Tiramos meus avós da Vila Cruzeiro

Hoje meus avós se mudaram. Aliás, eles estão se mudando desde ontem. Mas vamos começar do começo.

Quando eu nasci, meus avós já moravam há 10 anos naquela casa. Meu avô foi sapateiro por muitos anos, até virar pedreiro, daqueles jeitosos e limpinhos que fazem os serviços bem feitos.

Era uma casa graciosa, nada que chamasse a atenção, nunca estaria no Pinterest, mas uma casinha perfeitamente agradável e funcional, com um murinho baixo, cacos de vidro no topo do muro para evitar ladrões, um telhadinho pra proteger o fusca, e um corredor grande e largo.

Após o corredor, um degrauzinho te fazia adentrar a casa, logo na sala, na mesa onde almoçamos em todas as datas comemorativas. À esquerda, a cozinha, que por ser criança nunca pude mexer muito, exceto pra sentar na mesinha do canto e tomar um café com creme crack.

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