Resenha: A Morte de Ivan Ilitch, 1886 (Lev Tolstói)

Resenha | A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói – Valeu, Gutenberg!

Um funcionário público, ascendente na carreira jurídica, um dia sente uma dor do lado esquerdo na barriga.

Após uma breve passada por sua história, acompanhamos os últimos meses desse funcionário, à medida que essa dor toma o protagonismo de sua vida, tornando a existência uma agonia para si e para todos ao redor.

Este livro, que tem por volta de 70 páginas, é um convite para refletirmos não sobre a morte de Ivan, mas sobre a nossa própria morte e a vida que escolhemos.

Sinceramente, por ser tão curto, o livro não me trouxe nenhuma grande reflexão, e não acho que se justifique qualquer hype nele. Se por um lado a leitura é rápida, sinto que também a esquecerei rapidamente.

Resenha: Do que eu falo quando falo de corrida (2010)

Devolva meu livro, por favor: Do que eu falo quando eu falo de corrida  (Haruki Murakami)

Eu comecei a correr em 2021 para perder os quilinhos da quarentena e acabei encontrando na corrida um hobbie bem envolvente. Só que correr não necessariamente é algo divertido ou prazeroso. Em geral, é algo cansativo que vai contra a vontade primordial do corpo de preservação. É preciso estar constantemente se motivando para manter o hábito, pois 100% do tempo há uma voz no fundo da cabeça repetindo um milhão de desculpas para não correr.

É preciso estar a todo instante focado no único motivo que faz a corrida valer a pena: o banho de serotonina após o fim do exercício, com a sensação de dever cumprido.

Manter-se motivado é um desafio e por isso procuro obras sobre o assunto que me motivem. Foi o caso dessa, as anotações deste grande autor japonês sobre seu hábito de correr.

Para o Murakami, a corrida de longa distância é um esporte de força mental. Com condicionamento e os tênis adequados, correr é meramente exercer o domínio do corpo para manter as pernas correndo. Assim como escrever ficção. Correndo 10km todos os dias, a meta dele é fazer 300km por mês. Isso treina sua força mental para escrever mais e melhor.

No livro há relatos da primeira maratona dele (42km), dos treinos, das motivações, alguns trechos biográficos, algumas corridas que ele fez em locais inusitados (em Atenas, por exemplo). Há também o relato pessoal de uma ultramaratona do Japão: 100km em 10 horas. O que passa na cabeça de alguém que corre 100km em um dia?

Resenha: Almas Mortas, 1842 (Nikolái Gogol)

RESENHA #511] ALMAS MORTAS - NIKOLAI GOGOL

No boi há muito que se aproveite, mas dele ninguém vai tirar o leite.

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Tchitchicov queria comprar almas mortas. Thats the point. Você, nem ninguém, sabe o motivo. E é isso que faz o livro acontecer.

Como uma câmera que vai passando de casa em casa, do mais baixo ao mais alto clero da Rússia do século XIX, Tchitchicov se adapta aos ciclos sociais, se apresenta como um agradável empreendedor, e tenta comprar almas mortas. Almas, no caso, são os servos, que são tratados como propriedade dos donos das terras.

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Resenha: A Morte do Pai, 2009 (Karl Ove Knausgård)

A morte do pai – Karl Ove Knausgård – Literateca

Eu diria que 70% desse livro é bom. O autor entra em um freestyle autobiográfico passeando por suas lembranças da juventude e adolescência. É como ler um blog ou o diário de um adolescente super bem escrito. São aquelas leituras fáceis e viciantes em que se entra num transe e 50 páginas passam num piscar de olhos.

Os outros 30% são elocubrações filosóficas que o autor faz aleatoriamente e você se pega pensando: Karl Ove, não é pra tanto. Voltemos aos fatos…

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Resenha: O Livreiro de Cabul, 2001 (Asne Seierstad)

Prestes a completar 20 anos, o livro se passa no Afeganistão, logo após o ataque às torres gêmeas. Uma jornalista convive com a família de um livreiro, um homem respeitado e ascendente social, símbolo das contradições de uma sociedade em transformação, retratando o cotidiano de diferentes membros do clã.

O Talibã, que voltou ao poder há algumas semanas, tinha acabado de cair justamente para os Estados Unidos. Com eles, levaram a institucionalização da ignorância e do radicalismo. Nas ruas ainda se encontra destroços, carros queimados, cartuchos de bala, e a violência ainda convive lado a lado, não só pela guerra recente, mas por estar profundamente entranhada na cultura.

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Resenha: Tudo é Rio, 2014 (Carla Madeira)

Tudo é rio Carla Madeira

Quando Heráclito falou que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, ele vinha de um momento em que todos os filósofos se preocupavam em saber qual era a essência da existência humana. Após uma sequência de teorias, que diziam ser o fogo, o ar, a água, a natureza, Heráclito disse: é a mudança. A vida é mudança.

A primeira frase da sinopse de “Tudo É Rio” diz: “Algumas vezes as mudanças acontecem na marra”. Porque, em última análise, o livro trata de mudanças que, na marra, moldaram a vida das pessoas. De três pessoas: Venâncio, um homem ciumento; Lucy, uma puta; e Dalva, uma mulher com um coração enorme.

Sangue, sêmen e lágrimas.

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Resenha: Querida Konbini, 2011 (Sayaka Murata)

Querida Konbini | Sayaka Murata

Existem algumas maneiras de ler esse livro. Para os otimistas, é um livro sobre a felicidade e encontrar seu lugar no mundo. Para os questionadores, é um livro que impõe a pergunta: o que é ser normal? Para quem gosta de diagnósticos, deve ser um livro sobre autismo, ou algo semelhante. Para os práticos, uma análise prática: o capitalismo tardio e a precarização do emprego.

Keiko tem 36 anos e nunca se encaixou bem socialmente. Sem nunca saber como se portar, preferia que as pessoas lhe dissessem exatamente o que fazer, como agir, como sorrir, como olhar, como vestir. Encontrou isso num trabalho temporário, em uma loja de conveniência (Konbini).

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Resenha: Laços, 2014 (Domenico Starnone)

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Tem imagens que são mais óbvias, iniciantes, que todo jovem ao tentar escrever poemas vai recorrer. É por isso que é tão comum encontrá-las por aí. A dualidade da palavra “nós”, que pode ser a primeira pessoa do plural ou um laço bem amarrado, é uma delas.

Tem aquela música da Fresno, “são muitos enredos enrolados, embriagados, como nós”. E tanto a música quanto o livro de Starnone falam de relacionamentos que de tanto se enlaçarem, apertam-se, sufocam-se, e demandam um pouco de liberdade, um corte abrupto, que deixa marcas.

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Resenha: O Sentido de um Fim, 2011 (Julian Barnes)

Livro - O Sentido De Um Fim - Julian Barnes (box) - Tag | Mercado Livre

Rápido, surpreendente e intenso.

Rápido – É um livro sobre o tempo, sobre envelhecimento, remorsos e esquecimentos. Sintomas de uma vida que vai se acumulando. Na primeira parte, o autor pincela uma infância ligeira, apenas com os pontos relevantes. E depois, um salto, aos 50 e tantos anos muita coisa é retomada após receber uma herança inesperada.

Surpreendente – A grande brisa desse livro é sobre como editamos nossas memórias à mercê de nossos sentimentos, nossas vontades e perspectivas. Sobre como criamos narrativas pessoais, que tomamos como verdade, e que muitas vezes nos afastam de uma concepção verossímil da realidade.

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Resenha: Intérprete de Males, 1999 (Jhumpa Lahiri)

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Uma série de contos sobre uma Índia cada vez mais globalizada.

O conto que dá o nome ao livro é, de longe, o mais legal: um guia turístico está passeando com uma família americana e conta que trabalha de “intérprete” para o médico estrangeiro que atende no seu bairro, traduzindo do bengali para o inglês as dores dos habitantes. Esse serviço desperta o interesse da mãe, que imagina nele a solução para um mal que ela nunca conseguiu por em palavras.

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