A quarentena é curiosa…

Depois de muito tempo, fui à casa de umas amigas que moram aqui na rua de trás. Mesmo que fosse normal, parecia diferente. Algo meio privado, ninguém podia saber. E mesmo que parecesse normal, era mesmo diferente. Não porque 1500 pessoas morriam por dia. Mas porque depois de tanto tempo se comunicando tão pouco, falando com tão poucas pessoas – uma cerveja e um bate-papo verbalizava tanto! E verbaliza para além dos discursos comuns, que nos habituamos a usar socialmente, nas conversas corriqueiras, que constroem aquela persona transitória. Fomos encontrando um novo tipo de conteúdo, um pouco parecido com o antigo, mas com umas pitadas um pouco mais reflexivas, como se todos ficássemos um pouquinho Zaratustra das ideias.

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Sobre Chinelos e Ciclos do Caos

Eu estava saindo do mercado, bolsa cheia de verduras, buço suando embaixo da máscara, coçando a pelugem da parte inferir do lábio com a boca.

Passei por umas floriculturas, olhei, olhei, escolho planta como se fosse roupa, olho um milhão de vezes, nunca gosto de nada, raramento vale o investimento, até que ploft, surge uma que me conquista o coração e compro imediatamente, mesmo que não pudesse.

Mas naquele dia nada. Então saí das floriculturas e meu chinelo arrebentou.

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Acabou a paz e o amor

Washingtonians Are Making Poignant Art About Quarantine ...

Agora o combustível para cada dia de quarentena é o ódio generalizado.

Há um mês, pensei ter atingido o pico de stress da quarentena. Meu horário e salário foram reduzidos por conta da pandemia. A equipe foi reduzida pela metade, mas as demandas continuaram as mesmas. E o meu chefe… o meu chefe é pior do que qualquer redução.

Sexta-feira ele gosta de aparecer. Nos corredores já se sente, nas entrelinhas já se ouve. “O que será que ele inventa hoje, ein?”, nos perguntamos ao chegar da tarde. Conforme anoitece sondamos, avisamos que pretendemos fechar o expediente, que temos isso ou aquilo. Nada.

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Sobre minha profícua carreira de atleta

Rolling Stone · 4 motivos para acreditar que Space Jam não é tão ...

Eu tinha 7 anos quando cheguei em São Paulo. Meu pai havia sido transferido para trabalhar em Osasco e toda a nossa família se mudou para Jundiaí. Era uma mudança brusca, mas as condições de vida iam melhorar muito – o Rio de Janeiro não vivia seus melhores dias.

Passamos 3 meses em um hotel chamado Le Partenon, num apartamento com cozinha americana e dois quartos. Era a vida dos sonhos. Eu não estava matriculado ainda e passava o dia vendo TV Globinho e jogando o meu CD-Rom com 120 jogos num notebook alugado. Existe um cheiro específico de comida que me lembra imediatamente o Le Partenon.

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Meets n Greets por aí


(Play enquanto lê pra pegar a vibe.)

Minha ex namorada é a única pessoa que eu conheço que curte Esteban Tavares. Então, quando tem show dele, a gente vai junto, só eu e ela, o que poderia soar estranho; mas tendo em vista que terminamos bem, é um role bastante agradável para por a conversa em dia e curtir música boa juntos. Nos sentimentos maduros e satisfeitos pela forma como nos relacionamos e isso acaba nos fazendo felizes também.

Então lá estávamos, curtindo o showzasso do Esteban, um dos melhores no cenário nacional, com muita guitarra, maçonha e letras tristes. A menina tirou um doce da carteira e me ofereceu metade. Fazer o quê, né? Tá bom, então.

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Sleepy Beach

– Com licença, você também comprou passagem nessa corporativa?
– Não, não.
– Ah, beleza.

Pedro continuou olhando sua passagem, tentando entender aonde seria o embarque. O senhor com quem acabara de falar, então, lhe pergunta amistosamente:

– Pra onde você está indo?
– PORRA. Tu quer ficar de papo AGORA?

E foi embora. 

Assim teve início mais um dia comum em São Paulo City.

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Aquele do Los Hermanos

Irreverência no Busão

staff-laughhard-spotted-this-guy-on-the-bus-have-a-nice-43371483Deu 19h e o último foi embora do escritório. Pensei: minha chance. Fui ao banheiro, apertei umzinho, peguei minhas coisas e fui embora aproveitar a solidão para dar um dois nas ruas desertas da Barra da Tijuca.

Com os zoin vermelho, entrei no busão e coloquei meu fone. Uma cultura curiosa se constrói naquele ônibus: os passageiros criaram um grupo no whatsapp com o nome da linha e passam a viagem inteira conversando. Qualquer vislumbre em celulares demonstra que eu sou, possivelmente, o único que ainda não participa do grupo. E, para ser sincero, prefiro continuar assim.

Eles fazem parte daquele estrato detestável de utilizadores do Zap que não reúnem as capacidades sociais necessárias para viver em sociedade. Em rápidas olhadas, já pude ver um cara responder a uma menina com “e você avisou a ele que você gosta de leite de macho?” e numa outra ocasião “estudar é meu pau ensaboado, filho da puta” seguido de um gif da Gretchen pagando boque. Eu definitivamente não quero participar desse grupo.

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Diário de Um Sentimento Ruim

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Vamos voltar um pouco…

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DIA #1

É ruim psicologicamente. Eu estou pensando em excesso, o tempo todo, ela aparece numa frequência enorme, ridícula até, me leva a fazer coisas ridículas. Fico recordando tudo que deu errado, todas as palavras ruins, olho para os rostos e fotos e procuro maus tratos. Tudo pra sufocar esse sentimento de querê-la que só me machuca mais, por doer em dobro. Sinto-me um saco, insuportável, pedindo desculpa por tudo, puxando papos ruins, me jogando todo estabanado nas conversas como se a sociedade fosse obrigada a inebriar essa ausência. Estou existindo em excesso, cansado de mim, exausto. Sei que sou ótimo, mas mesmo assim. Não é culpa minha, não podia ter sido diferente; mas mesmo assim. Sei que vai passar, mas mesmo assim.

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O que é bom a vida dá

Nós precisamos saber admitir quando a vida nos sorri, não é mesmo?

Ainda que, como diz sabiamente aquela letra da Tópaz, “O que é bom a vida dá / pra depois poder roubar / e morrer de rir ao ver / que você não tem mais”, devemos entender seus gracejos mas sem jamais apegar-nos a eles.

Foi o que aconteceu naquele domingo. Eu havia terminado, em definitivo, uma relação de idas e vindas que se estendia há meses. Já estava tão calejado das feridas que o término suscitou, que sequer conseguia sentir a melancolia desta vez. Esperava, esperava, imaginava “hm, hoje é domingo, talvez lá pela terça eu sinta falta dela, na quarta mande uma mensagem inconsequente, que desenrole para mais um encontro culpado ao anoitecer”, e nesses pensamentos ia divagando meu domingo.

Até que aconteceu algo diferente.

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