Enxofre

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Cena de Somewhere in Palilula (2012)

Eu tava de cabeça baixa lendo um livro.

Ao meu lado tinha um gordinho que me apertava contra a parede do ônibus. O trânsito fluía lento e um cheiro esquisito fez-se presente aos poucos. Lembrei imediatamente de um defumador para limpeza espiritual que tive de passar em casa, mas não era bem aquilo. Não, era outra coisa com cheiro amargo de misticismo. Ainda sem levantar a cabeça, olhando para as páginas do livro, lembrei. Enxofre.

Gente.

Uma linda voz desesperada entrou na cena. “Gente, desculpa”. Levantei a cabeça. Ela usava uma máscara branca sobre a boca e o nariz, um dos magrelíssimos braços se apoiava numa bengala e o outro nas costas curvadas. Balbuciava palavras e pedia ajuda. Estava com câncer, falava de comprar fraldas, uma fralda custa vinte reais, por favor me ajuda, me ajuda, eu imploro. Eu não consigo nem comprar nada pra comer, eu tô com fome, vocês vão me negar? Eu imploro, gente, me ajuda.

E a voz dela era linda. Linda. Era firme, soava bem aos ouvidos. Só que chorada, dolorosa, com uma rouquidão de autocomiseração e desespero de partir o coração. E aquele cheiro de enxofre insuportável misturado com urina, aquela queimação nas narinas. O homem do meu lado levantou e saiu do ônibus, mesmo que não nos mexêssemos há muito tempo.

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Mais um post de aniversário. Já é o 10º.

Sem título

Amanhã, por uma inegociável força do destino, farei aniversário. Como de hábito, passei extremamente mal na semana do meu aniversário, desejando um fatídico desfecho para minha existência ao longo de todo este período. O desgraçado desfecho viria a chegar pelas eleições, mas por uma questão de manutenção do bom humor não abordarei este tema. Sem saúde nem condições democráticas para me estender numa crônica inédita, reproduzo aqui o texto do meu último aniversário, postado no meu antigo blog, e depois dele algumas reflexões para a nova idade.

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Aquele do Gol do Pará

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“Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro”
– Nelson Rodrigues

“A multidão ia para o Fla-Flu e o estádio do Fluminense não cabia de tanta gente. Era uma febre, uma epidemia de Fla-Flu. Ninguém estava livre dela: pegava feito visgo.”
– Mario Filho

***

Eu tenho um amigo, o Riccola, que dentre todas as pessoas que conheço talvez seja a melhor, mas reincide diariamente em um terrível erro que acomete somente aos piores seres humanos deste planeta: ele é flamenguista.

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relatos de uma autoestima #04

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As pessoas sempre elogiaram meu sorriso. Não o sorriso natural, espontâneo, que mostra um pouco da gengiva e dá um contorno grosseiro aos meus lábios, mas o sorriso forçado, aquele de fotos e situações desconfortáveis em que vestimos uma máscara agradável de nós mesmos. É por que meus dentes, de fato, além de bem brancos e de tamanho e alinhamento ideais, são bem bonitos, de forma que eu posso manipular meu sorriso para mostrar somente eles, ato que minha mãe chama de “sorriso idiota” e meus amigos de “sorriso colírio”.

Essa minha mesma mãe, sempre com comentários precisos sobre o ser humano que saíra de seu ventre, disse algumas vezes ao longo de minha vida que meu “rosto era bonitinho, só o nariz que não, o nariz veio do pai, é gordinho, batatudo, se eu fosse você faria uma plástica pra deixá-lo arrebitadinho”. De fato, como eu já disse, meu nariz e meu queixo destoavam do resto do corpo, e empenhavam uma disputa particular para saber quem chegaria primeiro ao chão, disputa na qual o meu nariz, por incrível que pareça, levava vantagem, pois, se estava atrás na distância, esta diferença diminuíra bastante ao longo dos anos.

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relatos de uma autoestima #03

 

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Ao longo de toda a minha carreira de atleta, permaneci imune à maioria das mazelas que afligem a carreira de jogadores, como lesões, suspensões, perseguições e outros ões diversos. Sempre fui, contudo, vítima de um problema devastador que ceifou qualquer possibilidade de seguir uma profissão esportiva: eu sou ruim em todos os esportes.

Sempre que me chamavam para jogar futebol, eu, que nem chuteira tinha até pouco tempo, sacava meu allstar e ia para a parte defensiva do campo, pois minha expertise, mais do que dominar uma bola, era dar carrinhos. Se me faltava técnica, sobrava vontade – mas só nos primeiros cinco minutos, antes de cansar; depois faltava tudo.

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Espetáculo no Escuro

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Um barulho tremendo lancinou no meio da rua e as luzes de toda a vizinhança se apagaram de repente.

Alejandro ficou como que paralisado por alguns instantes, esperando pelos próximos acontecimentos. Imediatamente o alarme de um carro começou a tocar bem no fundo. O coração dera um único pico, suficiente para uma volúpia assomar-lhe o peito e disparar seus batimentos.

Olhou para o celular. 2% de bateria. Agora sim acendeu-se-lhe no peito um desespero sem precedentes. As horas seguintes subitamente pareceram que durariam dias, meses, como que uma eternidade. Seria obrigado a dormir cedo, não apenas cedo – impensavelmente cedo.

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