Espetáculo no Escuro

DmhcRrlXsAAREqj

Um barulho tremendo lancinou no meio da rua e as luzes de toda a vizinhança se apagaram de repente.

Alejandro ficou como que paralisado por alguns instantes, esperando pelos próximos acontecimentos. Imediatamente o alarme de um carro começou a tocar bem no fundo. O coração dera um único pico, suficiente para uma volúpia assomar-lhe o peito e disparar seus batimentos.

Olhou para o celular. 2% de bateria. Agora sim acendeu-se-lhe no peito um desespero sem precedentes. As horas seguintes subitamente pareceram que durariam dias, meses, como que uma eternidade. Seria obrigado a dormir cedo, não apenas cedo – impensavelmente cedo.

Continue Lendo “Espetáculo no Escuro”

Big Island Dreams

DAQUELE JEITO

7h50 o bashar a la zap me vibra. Abro os olhos. “Cadê você, cara?”, perguntava-me o Cleyton.

Eu disse que já tava quase na casa dele, como marcamos, às 8h. Mas eu nem tinha levantado ainda pra falar a verdade. Íamos para Ilha Grande naquela sexta-feira e nosso ônibus saía às 9h. Corri e continuei correndo até chegar na casa do menino por volta das 8h15. Ele já me esperava e pedia o uber, que em menos de cinco minutos freou próximo a nós. Entramos.

– Vão pra rodoviária, né? – confirmou o motorista.

– Isso. Mas aí… DAQUELE jeito. – explicou o Cleyton.

Colocou o óculos de grau. O homem olhou-nos pelo retrovisor.

– DAQUELE jeito?

– É, nosso ônibus sai às 9h.

– Vocês sabiam… que eu era piloto de ambulância?

Quem andasse pelas ruas do Méier naquela manhã de sexta talvez conseguisse ver o vulto da máquina que engolia as ruas em direção à Rodoviária Novo Rio.

Continue Lendo “Big Island Dreams”

relatos de uma autoestima #02

Eu detesto falar com pessoas na academia. Trocar a mais rápida das palavras é como assinar um contrato de que você precisará cumprimentar a pessoa pro resto da vida, encontrando-a diariamente naquele ambiente, o que não seria tão ruim assim se não fosse o pior de tudo – as pessoas da academia são incrivelmente entediantes.

Certa vez, há 3 anos, uma professora super petista estava na academia argumentando com uma velhinha sobre política, a velhinha dizendo absurdos, que os sírios vinham pro Brasil roubar nosso emprego, empregos esses escassos por que a Dilma safada tinha roubado não sei o que lá, e a professora quase explodindo de raiva por que ela saíra da miséria graças ao Lula e ganhara sua casa graças à Dilma, enfim, esses embates que ocorrem no dia a dia, quando um cara, que eu nunca tinha sequer cumprimentado, chegou pra mim e disse: hehehe, Dilma vagabunda, tinha que ir presa!

Continue Lendo “relatos de uma autoestima #02”

relatos de uma autoestima #01

Ultimamente eu tenho tido aquela que, ouso dizer, é a melhor aparência que já tive na vida. Isso é triste, pois sugere que daqui pra frente só há de piorar. É claro que a minha visão sobre isso é subjetiva e tendenciosa; talvez somente meus pais, que me viram diariamente nos últimos 23 anos, soubessem afirmar isso, mas fato é que me olho no espelho e me sinto bonito.

O que penso é que, independente da minha autoestima, que está alta sim senhor, estou bonito. Todo o emaranhado cósmico que delimita os pormenores de nossas vidas se alinhou de forma tal que hoje posso frequentar a academia, praticar esportes, ter uma alimentação de qualidade e um ritmo de vida saudável.

Tudo isso, somado e em suma, juntou-se a um momento em que encontrei no Ney, meu barbeiro, um amigo, um companheiro e ajudante, diferente das moças de salão que sempre mais prejudicavam do que ajudavam, a despeito do preço que cobravam.

Continue Lendo “relatos de uma autoestima #01”

Hangloose

busstopCircunstâncias da vida me levaram a estar no bar numa quarta à noite do outro lado do Rio de Janeiro. Eram 23:30 e eu estava ligeiramente bêbado, após conversas singularmente importantes (assunto para outro momento)* em um ponto escuro e deserto do centro do Rio de Janeiro, torcendo muito para que o ônibus, que o último da noite saía às 23:15, não tivesse ainda passado por ali.

*N.A.: Eu não lembro mais o que era.

Após alguns minutos de aflição ele apareceu. Entrei e a primeira coisa que ouvi foi o motorista gritando “Quer meus dado? Se quiser meus dado eu te dou. Mas senta ai. Tu vai cair de novo. Alá, não ta nem se segurando, vai cair de novo”.

Continue Lendo “Hangloose”

Aquela de Jambú

Era verão.

Toda a empresa fora convidada a uma churrascaria chique na zona sul. Comemos comida de gente rica, com carnes que se desfaziam na boca, champagne e cerveja liberada, tudo às custas dos nossos chefes. Vez ou outra pediam o microfone para fazer algum tipo de agradecimento, “estamos ficando bilionários às custas do seu tempo de vida e esforço”, só que mais bonitinho, sabe, coisas assim.

Por volta das 17h ninguém aguentava ingerir mais nada – até por que não podíamos fumar um Bergson por ali, o que diminuía sensivelmente nossa capacidade alimentativa – e estávamos ansiosos para uma choppada que iríamos dali a pouco. Nosso grupo saía pouco, mas quando saía era pra fazer história, e estávamos portanto ansiosos para ir àquela choppada de publicidade da faculdade do meu amigo, o Gui.

Chegamos por volta das 19h. Estava claro e todos já bêbados – a festa começara 16h. Meio deslocado, eu sabia que era questão e tempo – e álcool – até tudo se resolver.

Hoje vou te arranjar uma menina“, disse-me Gui.

Continue Lendo “Aquela de Jambú”