40 dias de quarentena

Entendo que tenha todo um lado problemático nessa afirmação, mas eu estou amando a quarentena. Nesses 40 dias, tive apenas dois dias de mau humor. De resto, estou brilhante. Faço minha comida, trabalho sem precisar sair de casa, meu salário e minha família estão protegidos. Moro na minha própria casa, onde posso molhar minhas plantas e tomar chá com torradas.

Disse algumas vezes essa frase e repito de novo: o que vocês chamam de quarentena, eu chamo de férias de verão. Porque era exatamente assim mesmo. Eu passava dois meses in-tei-ri-nhos sem sair de casa. Tão logo acabava o ano letivo, eu agia exatamente assim:

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Il terzo incomodo

Estava lendo A Cartuxa de Parma, do Stendhal, numa ensolarada manhã de quarta. O romance é um clássico de formação, ou seja, acompanha o personagem desde a tenra adolescência, ao longo de toda a sua obtenção de conhecimento e experiências, até a meia-idade.

Em determinado momento, Fabrice, o personagem principal, passa a ser alvo de ciúmes do conde Mosca, que é casado com sua tia. Os ciúmes de Mosca são estimulados por picuinhas da nobreza francesa, de forma que em pouco tempo passa a ser um sentimento imperioso em sua relação com a duquesa.

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Catarse 101

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Esta manhã me entreguei à frivolidade dos instantes. Não que fosse minha intenção. Foi imperativo. Aproximava-me do ponto de ônibus quando pude vislumbrar o desgraçado, aquela carroça do inferno, aquele pau-de-arara pós-moderno, que atende pelo nome de 693 ALVORADA passando ao longe. Corri, corri, mas não o suficiente. Cheguei apenas ao ponto de vê-lo esvair-se no horizonte sem mim.

Acendi o baseado e li dois capítulo de A Cartuxa de Parma, que tenho lido. Remarquei a reunião das 11h. Terminei de escrever esse post no celular. Boa manhã.

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Meets n Greets por aí


(Play enquanto lê pra pegar a vibe.)

Minha ex namorada é a única pessoa que eu conheço que curte Esteban Tavares. Então, quando tem show dele, a gente vai junto, só eu e ela, o que poderia soar estranho; mas tendo em vista que terminamos bem, é um role bastante agradável para por a conversa em dia e curtir música boa juntos. Nos sentimentos maduros e satisfeitos pela forma como nos relacionamos e isso acaba nos fazendo felizes também.

Então lá estávamos, curtindo o showzasso do Esteban, um dos melhores no cenário nacional, com muita guitarra, maçonha e letras tristes. A menina tirou um doce da carteira e me ofereceu metade. Fazer o quê, né? Tá bom, então.

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Os Irmãos Karamázov (1880)

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Houve duas grandes motivações para surgir em mim a vontade de ler Os Irmãos Karamázov, esse clássico russo de 1880 com mais de 1000 páginas: a primeira é meu fascínio por Dostoievski, e a segunda é Nelson Rodrigues. Em alguma crônica, Nelson traça um paralelo entre a relação Fla-Flu e “as relações karamazovianas”. Se tem algo que eu não tolero é não entender referências literárias, então não demorou 3 dias para eu estar lendo o primeiro tomo do livro.

A história é assim: Fiódor Karamázov é um dos piores seres que você há de conhecer. Bon vivant, egocêntrico, egoísta, sórdido, vive intensamente e deixa um rastro de destruição e ódio por onde passa. Casa-se com uma mulher feia por interesse. Tem, com ela, um filho, Dmitri. Ela o abandona e, mais tarde, morre. O filho é levado ao Fiódor, que já está casado novamente, e é pai de mais dois filhos: Ivan, que viria a se tornar um intelectual, e Aliócha, uma criança tímida e pura que entra pro mosteiro. Essa segunda mulher os abandona.

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Ninguém vai se lembrar de mim

Quando eu criei um blog, aos 11 anos, o fiz pura e simplesmente por querer imitar os blogs que eu lia. Geralmente produzidos por pessoas muito mais velhas e com motivações diversas, a minha principal motivação, tal qual a criança que hoje cria um vlog pra imitar o Luccas Neto, era simplesmente imitar as pessoas mais velhas que eu gostava. O Izzy Nobre, por exemplo, morava no Canadá, e fazia da sua vida algo tão incrível que, de alguma forma, eu senti que também poderia fazer.

Não tardou e minhas principais referências minguaram – aqueles que não deletaram seus blogs, como o Efeito Ázaron, acabaram se tornando pessoas incrivelmente chatas, caso do próprio Izzy.

As referências se foram. O blog permaneceu. O ato de escrever, esse psicólogo recém desvendado, rapidamente tornou-se parte da minha personalidade – eu me tornei o bloggeiro, o menino de 14 anos que, com um computador, num quarto sem janelas, conseguiu uma audiência de mil leitores diários, conseguiu viajar para encontrar fãs, conseguiu rendimentos em dólar, conseguiu sair na matéria da Capricho.

Em algum momento eu já nem sabia direito o motivo de estar escrevendo.

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Sleepy Beach

– Com licença, você também comprou passagem nessa corporativa?
– Não, não.
– Ah, beleza.

Pedro continuou olhando sua passagem, tentando entender aonde seria o embarque. O senhor com quem acabara de falar, então, lhe pergunta amistosamente:

– Pra onde você está indo?
– PORRA. Tu quer ficar de papo AGORA?

E foi embora. 

Assim teve início mais um dia comum em São Paulo City.

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Relatos Oníricos

Eu sei que isso pode me colocar em enrascadas, mas sempre que eu sonho algo maneiro com alguém, imediatamente conto pra pessoa. Ainda impactado com as imagens do sonho, nem raciocino muito: acordo, lavo o rosto, pego o celular pra ver as 300 mensagens não lidas, abro a conversa da pessoa e conto pra ela.

No processo de contar, começo a perceber as ideias por trás das imagens, e consigo entender melhor os caminhos que meu inconsciente passou para chegar ali. Eu devia contar isso pra um psicólogo, mas na impulsividade que prezo por manter, por achar que me torna uma pessoa mais transparente e verdadeira, conto pra pessoa diretamente.

Talvez esses sejam os momentos de maior sinceridade de toda a minha vida. Curiosamente, as pessoas sentem que estou mandando uma indireta.

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Aquele do Los Hermanos

Irreverência no Busão

staff-laughhard-spotted-this-guy-on-the-bus-have-a-nice-43371483Deu 19h e o último foi embora do escritório. Pensei: minha chance. Fui ao banheiro, apertei umzinho, peguei minhas coisas e fui embora aproveitar a solidão para dar um dois nas ruas desertas da Barra da Tijuca.

Com os zoin vermelho, entrei no busão e coloquei meu fone. Uma cultura curiosa se constrói naquele ônibus: os passageiros criaram um grupo no whatsapp com o nome da linha e passam a viagem inteira conversando. Qualquer vislumbre em celulares demonstra que eu sou, possivelmente, o único que ainda não participa do grupo. E, para ser sincero, prefiro continuar assim.

Eles fazem parte daquele estrato detestável de utilizadores do Zap que não reúnem as capacidades sociais necessárias para viver em sociedade. Em rápidas olhadas, já pude ver um cara responder a uma menina com “e você avisou a ele que você gosta de leite de macho?” e numa outra ocasião “estudar é meu pau ensaboado, filho da puta” seguido de um gif da Gretchen pagando boque. Eu definitivamente não quero participar desse grupo.

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#1 Assim

Já aprendi a dizer sim
Já aprendi a caminhar
Já sei o que eu quero
Quem sabe eu chego lá

Viver nem é tão difícil,
a gente que complica.
Eu que nunca fui melancólico
não quero começar agora…

Não vem mexer comigo,
eu tô bem assim.
Não me pressiona
que eu tô bem assim.

Não roube o meu sorriso
ele nem vale tanto…
Mais raro é o meu pranto
não mostro pra ninguém.