Espetáculo no Escuro

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Um barulho tremendo lancinou no meio da rua e as luzes de toda a vizinhança se apagaram de repente.

Alejandro ficou como que paralisado por alguns instantes, esperando pelos próximos acontecimentos. Imediatamente o alarme de um carro começou a tocar bem no fundo. O coração dera um único pico, suficiente para uma volúpia assomar-lhe o peito e disparar seus batimentos.

Olhou para o celular. 2% de bateria. Agora sim acendeu-se-lhe no peito um desespero sem precedentes. As horas seguintes subitamente pareceram que durariam dias, meses, como que uma eternidade. Seria obrigado a dormir cedo, não apenas cedo – impensavelmente cedo.

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Carta a Um Jovem Poeta

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Borgeby Gard, Flàdie, Suécia, 
12 de agosto de 1904

Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abando-nará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

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Big Island Dreams

DAQUELE JEITO

7h50 o bashar a la zap me vibra. Abro os olhos. “Cadê você, cara?”, perguntava-me o Cleyton.

Eu disse que já tava quase na casa dele, como marcamos, às 8h. Mas eu nem tinha levantado ainda pra falar a verdade. Íamos para Ilha Grande naquela sexta-feira e nosso ônibus saía às 9h. Corri e continuei correndo até chegar na casa do menino por volta das 8h15. Ele já me esperava e pedia o uber, que em menos de cinco minutos freou próximo a nós. Entramos.

– Vão pra rodoviária, né? – confirmou o motorista.

– Isso. Mas aí… DAQUELE jeito. – explicou o Cleyton.

Colocou o óculos de grau. O homem olhou-nos pelo retrovisor.

– DAQUELE jeito?

– É, nosso ônibus sai às 9h.

– Vocês sabiam… que eu era piloto de ambulância?

Quem andasse pelas ruas do Méier naquela manhã de sexta talvez conseguisse ver o vulto da máquina que engolia as ruas em direção à Rodoviária Novo Rio.

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7 Melhores Filmes do Mundo

“O homem rude se contenta, desde que veja algo acontecer; o homem culto quer se emocionar; e só ao homem francamente culto agrada a reflexão.”
– Goethe

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Este post foi uma gracinha que fiz para uma das pessoas mais maravilhosas do universo, a Carolzinha.

Oi florzinha linda com pétalas de sorriso,

Fiz a lista que você pediu. Dos 20 filmes que mais me marcaram (eu os marco no Filmow), peguei os 6 mais importantes, não só para minha constituição como pessoa, mas também para a história do cinema, do fazer fílmico, e da cultura geral mesmo. Você pode encontrá-los facilmente pela internet.

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A Força de Mediocridade

Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas. O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?
Schopenhauer

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Uma vez no terceiro período eu queria fazer um trabalho para a matéria “Estudos de Consumo”. Toda a ementa versava sobre as lógicas de consumo, sobre como a sociedade como um todo passou a desejar de diferentes maneiras, dos ciclos e gatilhos de desejos que moldam nossa vida e cultura. Eu sempre faltei essa aula, pois começava às 8h e eu nunca que vou conseguir chegar na faculdade às 8h, mas o trabalho era obrigatório e eu estava empolgado com um tema: “O Romance na Pós-Modernidade”.

Estava lendo uns livros de antropologia sobre as lógicas dos relacionamentos amorosos em diferentes momentos da humanidade e sobre como a pós-modernidade oferecia todo um novo aparato de relações, descartáveis, transitórias, desapegadas, mas também a partir das quais encontramos voz, melhorias e crescimento.

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relatos de uma autoestima #02

Eu detesto falar com pessoas na academia. Trocar a mais rápida das palavras é como assinar um contrato de que você precisará cumprimentar a pessoa pro resto da vida, encontrando-a diariamente naquele ambiente, o que não seria tão ruim assim se não fosse o pior de tudo – as pessoas da academia são incrivelmente entediantes.

Certa vez, há 3 anos, uma professora super petista estava na academia argumentando com uma velhinha sobre política, a velhinha dizendo absurdos, que os sírios vinham pro Brasil roubar nosso emprego, empregos esses escassos por que a Dilma safada tinha roubado não sei o que lá, e a professora quase explodindo de raiva por que ela saíra da miséria graças ao Lula e ganhara sua casa graças à Dilma, enfim, esses embates que ocorrem no dia a dia, quando um cara, que eu nunca tinha sequer cumprimentado, chegou pra mim e disse: hehehe, Dilma vagabunda, tinha que ir presa!

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Quanto vale a sua opinião?

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Eu admito, não foi fácil. Eu já fui errado, já me importei. Já tentei argumentar. Já falei “eu só acho que” e defendi alguma efemeridade qualquer. Mas passou. Agora, não só gosto, como adoro essa história de que hetero-homem-branco não tem que dar opinião em nada.

Ao entrar na faculdade, no furor da juventude, somos tomados por um vigor, uma disposição incrível de argumentar e se fazer ouvir. Fomos aprisionados em regras obscuras durante toda a adolescência e experimentamos, alguns, a liberdade de pensamento pela primeira vez.

Nos perdemos em duelos retóricos, muitos rasos, por pessoas rasas ou por argumentos rasos. Alguns não. Alguns são incríveis, construtivos, edificantes. Nos dão uma euforia danada, o coração bate acelerado, as teclas são batidas desenfreadamente, enviamos mensagens sem nem reler direito (e pensamos, merda!, reler teria evitado tanta coisa…).

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relatos de uma autoestima #01

Ultimamente eu tenho tido aquela que, ouso dizer, é a melhor aparência que já tive na vida. Isso é triste, pois sugere que daqui pra frente só há de piorar. É claro que a minha visão sobre isso é subjetiva e tendenciosa; talvez somente meus pais, que me viram diariamente nos últimos 23 anos, soubessem afirmar isso, mas fato é que me olho no espelho e me sinto bonito.

O que penso é que, independente da minha autoestima, que está alta sim senhor, estou bonito. Todo o emaranhado cósmico que delimita os pormenores de nossas vidas se alinhou de forma tal que hoje posso frequentar a academia, praticar esportes, ter uma alimentação de qualidade e um ritmo de vida saudável.

Tudo isso, somado e em suma, juntou-se a um momento em que encontrei no Ney, meu barbeiro, um amigo, um companheiro e ajudante, diferente das moças de salão que sempre mais prejudicavam do que ajudavam, a despeito do preço que cobravam.

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Freestyle de Ideias

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MONOGAMIA MUSICAL

Esses dias comentaram comigo “eu gosto de ter vários romances, sabe? não quer dizer que eu queira namorar com nenhum deles. Às vezes, quando você ta empolgado, você até passa um tempo monogâmico, não dá vontade de ficar com mais ninguém. Mas isso passa, né, sei la, as pessoas não entendem e grudam, ai me broxa totalmente. A monogamia a longo prazo pra mim não faz o menor sentido.

Eu não só concordei com cada vírgula e entonação, como mais tarde ainda pensei, ouvindo apaixonadamente uma nova música: com a música acontece a mesma coisa.

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O Centro ao Meio-Dia

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“11h55?”, o Gui me mandou no whatsapp. “F1” respondi.

Eram 11:45. Eu estava no escritório e já começava a me preparar para dar um dois num beck antes do almoço, como fizemos algumas vezes pontuais.

Começou de forma inocente. Certa vez a gente tava afinzasso de dar um dois e não sabia aonde – o centro do Rio é cheio de coxinhas de terno, policiais e delatores. É preciso ter cuidado.

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